A Polícia Federal (PF) do Rio de Janeiro abriu um inquérito para investigar o incêndio que destruiu ontem seis ocas de uma tribo guarani na Praia de Camboinhas, bairro nobre de Niterói, na Grande Rio de Janeiro. A investigação foi pedida pelo Ministério Público Federal (MPF), informou hoje o representante da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Paraty e Angra dos Reis, Cristino Cabreira Machado.

Ele conta que na segunda-feira vai pedir para a Funai de Brasília um estudo para a demarcação de terras da aldeia, instalada no local desde abril.

De acordo com Machado, o estudo ainda vai definir se a aldeia poderá permanecer em Camboinhas, como é desejo dos índios, que vieram de Paraty, no litoral fluminense. Apesar do incêndio, eles querem continuar no local, que abrigava cemitérios indígenas, segundo o cacique Darci Tupã Nunes de Oliveira. Ele conta que cerca de 30 índios de Angra dos Reis, 20 de Paraty mais um grupo do Espírito Santo querem se juntar a eles. "Nós vamos ficar aqui. A área é nossa. Se é para acontecer (incêndio) acontece, mas vamos continuar", afirma o cacique.

Machado diz que vai "pressionar" a Funai para que o estudo seja realizado rapidamente, mas ele preferiu não dar uma estimativa de quando isso pode acontecer. Segundo o representante, a idéia é uma equipe do órgão estudar o local e as reivindicações dos índios para determinar se eles podem ficar em Camboinhas ou se serão transferidos. "Avalio essa questão como uma atrocidade que foi feita. Foi uma selvageria", afirma o representante da Funai sobre o incêndio.

Cerca de 100 pessoas participaram hoje de uma manifestação no local do incêndio, conforme estimativa do cacique Darci. Além dos membros da tribo, em torno de 45 índios, segundo ele, estiveram presentes representantes de colônias de pescadores e quilombolas de Niterói, além de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

O incêndio

O fogo começou no momento em que a maioria dos homens da tribo estavam em reunião num outro local. O cacique Darci conta que pelo menos 22 crianças estavam nos arredores da aldeia no momento. Um homem foi visto ateando fogo nas ocas, mas ainda não foi identificado. O índio Joaquim Karaí Benite, de 43 anos, foi o único ferido com queimaduras de segundo grau, mas passa bem. A Polícia Civil do Rio também instaurou inquérito para apurar o caso, mas já avaliou que o fogo foi criminoso porque foi constatado mais de um foco.

A aldeia que se instalou em Camboinhas já havia sofrido três ameaças, conta o cacique Darci, sendo que a última foi feita no último dia 4. O presidente do Instituto Estadual de Florestas (IEF), André Ilha, afirmou ontem que "existe fortíssima pressão da especulação imobiliária nas áreas não edificadas da Lagoa de Itaipu", nas proximidades de Camboinhas. Desde que a aldeia foi instalada, associações de moradores e empreiteiras têm resistido à ocupação.

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