Os tratamentos farmacológicos contra Alzheimer disponíveis retardam por algum tempo o progresso da doença, mas, depois de três anos, no máximo, tornam-se inócuos. “Quando os primeiros sintomas aparecem, a pessoa já está perdendo neurônios há 30 anos”, afirma Wagner Gattaz, presidente do conselho diretor do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

“Se o estrago já está feito, é muito difícil revertê-lo. Não conseguimos ‘ressuscitar’ neurônios.” Por isso, Gattaz aposta nas pesquisas direcionadas ao diagnóstico precoce e à prevenção.

Os processos neuroquímicos que levam ao aparecimento da doença são pouco conhecidos. Os estudos já apontam dois personagens importantes: a proteína Tau e os peptídeos amilóide-beta. Alterações na estrutura dessas substâncias causariam a morte dos neurônios. Ainda não existe um exame eficaz para detectar a doença nos seus estágios iniciais e assintomáticos. Para Gattaz, talvez no prazo de dois anos, a situação seja outra.

A empresa alemã Bayer desenvolveu marcadores eficazes para detectar os peptídeos anômalos. “Já foram publicados estudos animadores. Também vamos testar esse composto aqui na USP”, afirma Gattaz. “Só estamos esperando a instalação de alguns equipamentos necessários para os trabalhos: um acelerador linear e um tomógrafo por emissão de positrons.”

Mas o diagnóstico precoce não basta. É preciso desenvolver métodos eficazes para prevenir ou frear o desenvolvimento da doença. “Há indícios de que o lítio, em pequenas quantidades, exerce um papel neuroprotetor.” Gattaz realizou testes com idosos que sofriam de transtorno cognitivo leve - um grupo de risco para Alzheimer - e, segundo ele, os resultados são ótimos. “Descobrimos que o lítio inibe a expressão da enzima GSK”, explica o psiquiatra. A GSK participa da produção das formas anômalas da proteína Tau e dos peptídeos amilóide-beta. “O desafio agora é descobrir a dose mínima para prevenir a doença e não causar qualquer efeito adverso”, afirma.

Pesquisas

A atenção crescente dos cientistas reflete o envelhecimento da população. Governos, universidades e empresas já perceberam a importância de investir em pesquisas. Gastos com tratamento de demência consomem R$ 750 bilhões todos os anos, segundo a Alzheimer’s Association. Todas as semanas, a palavra “Alzheimer” aparece no sumário de alguma revista científica de grande impacto, sem contar as publicações voltadas especificamente para a área médica.

“Não houve só um aumento quantitativo nos últimos anos”, afirma Fernanda De Felice, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “As descobertas são cada vez mais relevantes.” Fernanda publicou um artigo na PNAS no mês passado. Mostrava como um remédio contra diabete pode ser eficaz no combate ao efeito tóxico dos peptídeos amilóide-beta anômalos. Os resultados já estão sendo testados em seres humanos nos Estados Unidos.

Alexandre Gonçalves

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