Pesquisas médicas geram poucas patentes

País continua importando tecnologia, quando poderia aproveitar o próprio conhecimento para desenvolver produtos e processos

Bruno Folli, iG São Paulo

Embora o Brasil tenha uma produção científica considerável, o número de patentes registradas ainda é muito pequeno. Apenas 480 pedidos foram feitos em 2009, período em que se publicou 30 mil papers.

“O conhecimento científico permanece nas universidades, sem encontrar aplicações práticas na sociedade”, critica Kátia Ramos Moreira Leite, patologista e chefe do Laboratório de Investigação Médica de Urologia do Hospital das Clínicas (HC), de São Paulo.

Para a médica, essa situação é provocada pelos próprios pesquisadores. “É uma questão cultural grave, que precisa ser trabalhada. Os médicos possuem preconceito contra o uso de suas pesquisas fora das universidades”, afirma a patologista.

Roger Chammas, oncologista do HC, acrescenta outro motivo. “Ainda não temos uma estrutura ideal nas universidades para transformar pesquisas em inovação”.

Essa realidade tem impacto direto na economia do país. Em 1976, o Brasil tinha uma renda per capita três vezes maior que a da Coreia. “Mas a situação se inverteu em 2004, quando a Coréia passou a ter uma renda três vezes maior que a nossa”, compara Kátia.

Isso seria consequência da falta de investimentos em patentes. “Em 2004, a Coreia registrou 4 mil patentes, enquanto o Brasil teve 220 apenas. Antes, tínhamos um volume de registros superior”, conta a médica.

A falta de inovação na saúde prejudica o déficit comercial (diferença entre importação e exportação) do complexo industrial da saúde. Ele saltou de US$ 700 milhões para US$ 6 bilhões nos últimos 25 anos, conforme dados apresentados no 4º Simpósio de Avanços em Pesquisas Médicas.

O evento aconteceu entre os dias 30 de setembro e 1º de outubro, no Centro de Convenções Rebouças, ao lado do HC. O baixo índice de patentes foi um dos destaques do encontro.

Novo observatório

Chammas revelou que um observatório está sendo criado no Hospital das Clínicas para identificar pesquisas com potencial para gerar inovações. Esse departamento também deve favorecer o pesquisador no processo de patente, dando auxílio no procedimento e até em possíveis negociações com empresas.

“Já existe uma agência na USP, mas ela é mais abrangente, voltada para todas as áreas da universidade. Esse observatório vai ser focado na área médica”, explica Chammas.

O médico conta que o hospital tem potencial para a criação de processos, em vez de produtos. São procedimentos que podem ser adotados em tratamentos clínicos ou cirúrgicos dos pacientes.

Muitas pesquisas

O médico José Eluf Neto, diretor-executivo dos Laboratórios de Investigações Médicas (LIMs) do HC, afirmou que a produção científica anda a todo vapor na instituição.

Segundo ele, os LIMs triplicaram a quantidade de pesquisas nos últimos 10 anos, e também deram um salto de 400% no número de artigos científicos publicados. As teses de doutorado dobraram e a captação de recursos da agência cresceu de R$ 8,5 milhões para R$ 34,7 milhões.

Neto explica que tem focado seu trabalho na transformação das pesquisas da USP em procedimentos para os pacientes do HC. Nesta linha, alguns médicos e pesquisadores reuniram uma série de trabalhos em diversas áreas para lançar a série Pesquisa à Prática Clínica (Editora Atheneu).

No simpósio médico, três volumes foram lançados: “Patologistas Urológicas – Da Bancada ao Leito”, “HIV/AIDS” e “Neurociência Aplicada à Prática Clínica.”

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