Pesquisas erram mais onde escolaridade é menor, diz especialista

RIO DE JANEIRO - O Brasil vai às urnas em 2010 pela 13ª vez desde o fim do regime militar, mas a experiência eleitoral não corrigiu um erro do País: achar que as pesquisas eleitorais induzem o voto. A afirmação é do sociólogo Alberto Carlos Almeida, que lamenta a ¿guerra ferrenha¿ por cada ponto percentual de subida e descida dos candidatos, ¿como se isso fosse mudar o seu destino¿. Para Almeida, o eleitor deve desconfiar das pesquisas e do uso que se faz delas por uma razão: ¿Os institutos erram, e muito¿.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

Atacar as pesquisas não chega a ser novidade. A novidade é o porquê. O sociólogo acaba de publicar o livro Erros nas pesquisas eleitorais e de opinião (editora Record), no qual mostra os equívocos mais comuns na execução de pesquisas. Almeida inspirou polêmicas há dois anos ao publicar A cabeça do brasileiro, em que estudou o comportamento ético das pessoas segundo o grau de escolaridade ¿ quanto menor o tempo de estudo, maior seria a tolerância com a corrupção.

Agora, o alvo é semelhante: as pesquisas erram mais nas cidades e nos estados onde o grau de escolaridade é menor. Almeida explica no livro: As pessoas de mais baixa escolaridade ao responderem a uma pesquisa de opinião declaram, em sua maioria, preferência pelo primeiro colocado. Mas, no momento de votar, erram e acabam anulando ou votando em branco.

Em entrevista ao iG , o sociólogo conclui: As pesquisas favorecem quem aparece em primeiro lugar em regiões como o Norte e o Nordeste, onde os votos brancos e nulos são maiores. Para ele, um erro vergonhoso.

Além de subestimar os brancos e nulos, outro erro das pesquisas, segundo ele, sistemático, é a superestimação das intenções de voto no candidato líder. Em 65% das pesquisas, o candidato apresentado como líder recebeu uma votação menor nas urnas.

Erros não privilegiam partidos

Para fazer a radiografia, Almeida confrontou 562 pesquisas entre 1986 e 2002 com os resultados de cada pleito. E concluiu que o erro dos institutos não tem preferência ideológica ¿ os institutos erram a favor e contra todos os tipos de candidatos e partidos.

Há dois tipos de erros, o amostral e o não amostral. O primeiro é mais conhecido do eleitor. Ao divulgarem uma pesquisa, institutos apresentam os pontos percentuais para cima e para baixo, que significa que o percentual de cada candidato deve ser acrescido de, por exemplo, mais três e menos três pontos.

O segundo tipo de erro é mais complicado e é para ele que Almeida alerta o eleitor. Erro não amostral é um termo técnico que significa erros de medição que não dependem dos tais três, quatro ou cinco pontos percentuais para cima e para baixo, define. E infelizmente é o tipo de erro menos debatido no Brasil.

Um dos exemplos usados pelo sociólogo é a escala esquerda-direita para explicar o voto e o apoio no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus opositores. Diz ele: Essa medição é problemática não por causa do chavão de que esquerda e direita não importam mais, mas porque aqueles que fizeram as pesquisas não se perguntaram, em nenhum momento, o que o nosso eleitorado acha que é ser de esquerda ou ser de direita.

O livro mostra que essa definição depende da escolaridade do eleitor: os com maior escolaridade acham que ser de esquerda é querer uma presença maior do Estado na economia, e ser de direita é o inverso disso. O menos, porém, consideram direita o que é governo. E esquerda, a oposição. Como misturar tudo isso numa medição só?, questiona Almeida.

Discrepância de resultados

Embora evite citar diretamente os institutos ¿ ele se refere a três, provavelmente Datafolha, Ibope e Vox Populi, os maiores do País ¿ Alberto Almeida acha que as urnas eletrônicas salvaram as pesquisas. Elas ficaram mais precisas com o a informatização do voto. Para checar a precisão dos institutos, o sociólogo adotou o critério da discrepância ¿ se previam 30% para determinado candidato, e este obteve 33% nas urnas, a discrepância foi de três pontos. Entre 1990 e 1998 a discrepância variou em torno de 20 pontos percentuais nas eleições estaduais. Caiu para 14 pontos em 2002.

Almeida questiona ainda uma das principais defesas que os institutos fazem para explicar a diferença entre as previsões e os resultados: as mudanças de última hora na cabeça do eleitor. O número de viradas é muito menor do que a gente imagina. Elas são raras, diz. O eleitorado é muito estável e dar essa justificativa é pôr no eleitor uma culpa que é dos institutos. O título de um dos capítulos sintetiza a crítica aos institutos e suas pesquisas: As pesquisas eleitorais indicam que o Natal vai cair entre 20 e 30 de dezembro.

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