Pesquisa nacional liga diabetes à depressão

O perfil do diabético brasileiro acaba de ser traçado e a ideia de que os mais gordinhos são os campeões da doença caiu por terra. Levantamento feito em 11.528 residências das cinco regiões do país atestou que a maioria dos portadores está longe da categoria obeso mórbido. Mas, ao mesmo tempo em que a parceria entre diabetes e obesidade foi colocada em xeque, uma nova associação veio à tona com o estudo: um em cada seis doentes apresenta depressão, índice quase duas vezes maior do que o encontrado na população em geral.

Fernanda Aranda, iG São Paulo |

O desafio de dar cara para o problema de saúde que acomete 21 milhões de pessoas no Brasil fez com que os especialistas Ricardo Cohen e Luiz Vicente Berti encomendassem a pesquisa sobre o diabetes. Com o raio-X em mãos, eles apresentaram os dados no mês passado no Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica (também chamada de redução do estômago).

Além de alertar os colegas médicos de que restrição severa alimentar não é remédio exclusivo para diminuir a incidência da doença ¿ que sempre é associada exclusivamente ao consumo excessivo de doces ¿ o número de 17% de diabéticos com depressão reforçou a necessidade de que psiquiatras e psicólogos façam parte da equipe que cuida desta área da medicina.

A discussão sobre a associação de diabetes e depressão é nova, começou há quatro anos, afirmou Cohen que é cirurgião pela USP e especializado em cirurgia bariátrica. Quando o diabetes é diagnosticado, no geral, o paciente já convive há dez anos com o problema. O ideal seria que o portador tivesse avaliação simultânea do psiquiatra ou psicólogo, completou.

As causas da ligação entre diabetes e depressão não são comprovadas cientificamente, mas a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) ressalta dois fatores. Um deles é hormonal. O diabético sofre mais os efeitos do cortisol, hormônio ligado ao estresse e à ansiedade, que é antagônico à insulina, justamente a que não é produzida naturalmente por quem tem diabetes.

Além das questões químicas, existem as implicações sociais da doença, como lembra o autor do estudo brasileiro Luiz Vicente Berti. O paciente de diabetes sabe que convive com uma chance maior de infarto, derrame, doenças do rim. Convive mais precocemente com a possibilidade de ter problemas da visão, de circulação, dores nas pernas. Uma doença que é crônica, para o resto da vida, observa.

Opinião semelhante tem a psicóloga da Associação Diabetes Juvenil (ADJ), Maria Marta Alcântara de Oliveira. Ter diabete, por si só, exige um esforço de adaptação. Para o adolescente, que é ainda mais complicado ser diferente da turma, isso pode pesar mais, diz ela.

O psiquiatra da ABP, Allan Gonçalves Dias, alerta que é muito importante os médicos, familiares e amigos dos diabéticos ficarem atentos às manifestações depressivas, como pensamentos derrotistas e falta de estímulo para o trabalho e lazer. A depressão prejudica tanto o diabetes quanto o tabagismo e o sedentarismo. Cuidar de um é, invariavelmente, tratar do outro, reforça.

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