Pesquisa mostra democratização da internet no Brasil

Uma pesquisa encomendada ao Datafolha pela agência F/Nazca quer acabar com uma idéia bastante difundida no Brasil: ¿internet é coisa de gente rica¿. Segundo o estudo, o Brasil já tem 59 milhões de usuários, o equivalente a 47% da população adulta (acima de 16 anos) ouvida pelo instituto. Destes, 65% acessam a rede gratuitamente, em postos públicos, escolas, universidades e na casa de amigos e familiares.

Luísa Pécora, do Último Segundo |


De acordo com Fernand Alphen, diretor nacional de planejamento da F/Nazca, a cada edição da pesquisa (esta é a terceira, a primeira foi em 2007), a pergunta feita aos entrevistados é aprimorada, já que podem existir diferentes entendimentos do termo acesso a internet. Queríamos saber quem tem acesso, independente de ter internet em casa ou pagar por ela, explica.

Nas duas pesquisas anteriores, os analistas notaram que o número de pessoas que acessava a internet de lan houses ou locais gratuitos sempre aumentava. Essas e outras alternativas foram, então, oferecidas aos entrevistados nos questionários aplicados para descobrirem como eles usavam a rede. Os resultados apontaram que 29% dos usuários acessam a web em lan houses, 21% em sua própria residência, 21% em casas de amigos e parentes, 10% em escolas e universidades e 9% em postos de acesso público.

As pessoas estão acessando cada vez mais a internet graças a locais gratuitos ou muito baratos, afirma Alphen, que não considera ser muito cedo para falar em democratização da internet. Não acho cedo, acho tarde. É claro que a penetração da internet é maior nas classes A e B, mas também é alta na classe C e está chegando à D, em todas as faixas etárias e regiões.

A causa dessa democratização, segundo Alphen, é uma combinação de esforços públicos, por meio do investimento em locais de acesso gratuito e da promoção da informatização de escolas e universidades, e privados, já que as lan houses também aproximam as pessoas da rede ao permitir o acesso avulso, apenas por um período determinado e sem exigir uma assinatura de serviço, por exemplo. É curioso notar que não existem grandes cadeias de lan houses no Brasil, acrescenta Alphen. São iniciativas de empreendorismo popular, que também geram renda para muitos brasileiros

Ari Meneghini, diretor executivo do Interactive Advertising Bureau Brasil (IAB) ressalta que a baixa dos preços dos computadores também pesa na discussão. No ano passado, pela primeira vez na história do país, foram vendidos mais computadores (10,7 milhões) que televisores (10,5 milhões) , explica. Ao colocar dez computadores em uma escola do Nordeste, permitindo que eles sejam usados por toda a comunidade, você provoca uma revolução.

Segundo Meneghini, ainda é difícil analisar as transformações que a internet provoca em todo o mundo, já que tais mudanças ainda estão em curso. A gente não sabe exatamente o que está acontecendo, mas já dá para falar em democratização da rede no Brasil, explica. O conceito de excluído na internet é diferente. Quem é excluído economicamente não é necessariamente um excluído na internet.

Números

Os dados divulgados pelo Datafolha surpreenderam por serem muito diferentes dos apresentados em uma pesquisa do Ibope de 2007. Neste estudo, estimava-se que o Brasil tivesse 41,6 milhões de internautas.

Meneghini explica que a metodologia dos dois institutos é diferente, e afirma que gostaria de se reunir com os responsáveis pela pesquisa do Datafolha e entender como ela foi feita. Mas acho ótimo que diversos institutos pesquisem a web, completa.

Embora diga que respeita o estudo do Ibope, Fernand Alphen acredita que os dados da nova pesquisa são mais precisos. O Datafolha aplicou um questionário em pessoas com mais de 16 anos, de todas as classes sociais, faixas etárias e níveis de escolaridade, em 150 municípios brasileiros. O Ibope, segundo Ari Meneghini, também entrevista pessoas maiores de 16 anos, mas apenas nas dez grandes regiões metropolitanas do País.

Para Alphen, em ambos os casos a lição é que a internet está chegando aos brasileiros. Nenhum meio de comunicação acontece se não chegar à base, afirma ele, que considera emblemática uma situação vivida por ele há alguns anos, quando sua empregada doméstica usou o MSN do patrão para conseguir se comunicar com as filhas, pois o telefone da residência delas não estava funcionando. Ela estava tão preocupada e tinha tanta necessidade de falar com as filhas, que venceu todas as barreiras possíveis. É isso o que está acontecendo: as pessoas estão sentindo a necessidade de se informar, divertir, comunicar, e vencendo as barreiras para conseguir.

Eleições

Os números da pesquisa Datafolha sobre a maior penetração da internet no Brasil foram divulgados meio à campanha para as eleições municipais deste ano, que tiveram alcance limitado na internet devido a uma determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para Ari Amborghini, o TSE exagerou ao vetar blogs e comunidades na campanha. Como há favorecimento de candidatos que têm muito dinheiro, concordo que é preciso haver controle. Mas hoje as pessoas buscam informações sobre os candidatos na internet. É este o melhor meio para os eleitores conversarem com os candidatos, entenderem suas propostas, afirma.

Fernand Alphen acredita que o TSE está remando contra a maré e que as restrições para a campanha na internet são surpreendentes em um país que usa urna eletrônica e promove prestação de contas dos políticos na internet. Ele cita a vitoriosa campanha do norte-americano Barack Obama nas primárias democratas para exemplificar o peso da internet nas eleições. O Obama começou a campanha com pouco dinheiro, mas utilizou a internet de todas as formas possíveis: ele tinha Twitter, Facebook, Orkut, site, blog, uma equipe para responder e-mails de eleitores, e assim conseguiu arrecadar US$ 1 bilhão pela rede, diz. Quase metade dos doadores de Obama contribuiram com menos de US$ 200.

Além disso, Alphen acredita que a medida não tem sentido porque a internet não é uma mídia passiva como a televisão. Na web, eu decido o que quero ver. Eu só entro no blog do Barack Obama se quiser saber o que ele pensa sobre determinado assunto, explica. O internauta é quem provoca o conteúdo. Se ele quer a informação, não deve ser limitado.

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