Pescadores resgatados beberam água do radiador e urina ‘gelada’

Sobrevivente da embarcação Witamar III chora ao lembrar dos momentos difíceis e diz que "pescador não pode ter medo”

Flavia Salme, iG Rio de Janeiro |

“Lembro de cada minuto”, diz o pescador Gilney da Silva, de 56 anos, sobre a maca do setor de enfermaria do Hospital Salgado Filho, no Méier, na zona norte do Rio de Janeiro. Junto a cada lembrança, um choro comedido. "Pescador não pode ter medo. Quem trabalha no mar precisa de coragem", respondeu ao ser perguntado sobre o que sentiu durante os 18 dias em que ficou à deriva em alto-mar - no total, a viagem durou um mês. Com cinco colegas, ele foi resgatado na noite da última segunda-feira (27) no litoral de Santa Catarina. A embarcação acabou naufragando no momento do salvamento .

Flávia Salme
O pescador Gilney da Silva: estado de saúde estável, mas sem previsão de alta


No hospital, Gilney recebe soro. As consequências dos dias em que vagou perdido no mar são visíveis. A pele está desidratada. Por conta do ressecamento, pequenas feridas foram abertas.

Flávia Salme
Desidratado, Gilney bebe muita água; a pele ressecada sofreu pequenos ferimentos
"Pega um copo d’água gelado por favor", pede ele à repórter do iG . Nos cerca de 20 minutos de conversa, ele pediu dois copos d’água. "Passei a considerar a água, a melhor bebida do mundo", comentou após esvaziar o copo em segundos.

Gilney disse que é viúvo do primeiro casamento e separado da segunda esposa com quem viveu durante 17 anos. Ele disse que tem cinco filhos e está ansioso para rever a família.

No entanto, embora o quadro de saúde do pescador seja estável, não há previsão de alta, segundo a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde do Rio.

Além dele, outros três pescadores permanecem internados em três hospitais municipais: Zenildo de Oliveira Pacheco, de 31 anos, Leandro Vidal Martino, de 34, José da Conceição, de 36. Maicon Lima Santos, de 24 anos, e Cristiano Pereira de Souza, de 33 anos, receberam alta na manhã desta quarta-feira (29).

Cristiano foi para a casa de uma irmã no Rio de Janeiro, segundo a mulher dele, Dilciléia, que falou com a reportagem do iG por telefone. Ela disse não saber o bairro em que estão hospedados.

"Eles pensaram em suicídio", diz dono do barco

O comerciante Pedro Gílson Dias Araújo, de 50 anos, um dos sócios do barco – mas que não estava a bordo –, contou que os pescadores chegaram a pensar em suicídio, de acordo com relato de Cristiano. "Cristiano contou que houve um momento de desespero e que eles chegaram a pensar em se matar. O maior problema foi a falta de água. Estão todos traumatizados", contou.

Flávia Salme
Pedro Gilson é comerciante e sócio da traineira Witamar III. "Documentação estava em dia e os equipamentos de segurança também. Não sabemos o que aconteceu", afirmou

Pedro visitou todos os pescadores ao longo desta quarta-feira. Segundo ele, Leandro Vidal Martino, de 39 anos, está em estado de choque. Internado ao lado de Gilney no hospital Salgado Filho, ele mal consegue falar. Diz apenas que não é casado e que possui pai e mãe. Os dois não conseguiram dormir na primeira noite que passaram no hospital.

De acordo com Pedro, os pescadores estavam há seis meses no Espírito Santo quando decidiram, em maio, vir para o Rio de Janeiro para pescar atum. Eles embarcaram no dia 27 de maio na praia do Forte, em Cabo Frio, no litoral fluminense, e pretendiam passar 12 dias em alto-mar.

Ainda de acordo com o comerciante, a embarcação tinha autonomia para navegar em mar aberto em qualquer ponto de águas nacionais. Acrescentou que os pescadores eram todos experientes e tinham cursos de tripulação.

"O barco tinha todos os equipamentos de segurança: GPS, bússola, rádio para comunicação e rádio VHS e de longo alcance. Cumpríamos todas as normas", garante ele. "Os pescadores me contaram que uma onda muito forte atingiu a embarcação ( uma traineira ) e eles perderam a energia. Quebrou o motor, quebrou tudo".

Momentos difíceis

Flávia Salme
Gilney disse que lembra de "cada minuto" em que passou no mar
"Não chovia. Não era possível pegar água da chuva", relembrou Gilney. O pescador contou que, embora tivessem mantimentos para 15 dias, a comida acabou antes – a água primeiro. "Primeiro começamos a beber a água do radiador. Depois só sobrou urina. A gente botava para gelar e bebia", conta ele.

Para sobreviver, Gilney disse que os pescadores comeram parte do atum que conseguiram pescar antes do acidente. "A gente comia peixe cru e açúcar", lembra.

Embora diga não ser religioso, Gilney afirmou que a sobrevivência do grupo foi um "milagre". "Sou pescador há 31 anos. Mas nunca se conhece o mar".

De acordo com Pedro, o barco estava em processo de venda para Zenildo de Oliveira Pacheco, de 31 anos, um dos sobreviventes da embarcação. Segundo ele, Zenildo era sócio de metade da traineira e tinha programado a viagem para pagar com o pescado a outra metade que pertencia a Pedro. O valor negociado, segundo Pedro, seria de R$ 50 mil.

Pedro disse também que a Secretaria de Saúde de Marataízes (ES) se comprometeu a disponibilizar um veículo para levar os pescadores de volta para casa quando eles receberem alta.

Naufrágio em Santa Catarina

Boletim divulgado pela Secretaria de Saúde do Município do Rio informou que Zenildo, internado no Hospital Miguel Couto, na zona sul, está com insuficiência renal, mas seu estado de saúde é estável, embora não haja previsão de alta.

O outro pescador José da Conceição, de 36 anos está no Hospital Souza Aguiar, no centro, com um quadro de desidratação, desnutrição e dor na lombar. Seu estado de saúde é considerado grave e ele está em observação para novos exames. Não há previsão de alta.

O comerciante Pedro Gilson informou ainda que a traineira Witamar III afundou no litoral de Santa Catarina, justamente no momento do resgate dos tripulantes. A Capitania dos Portos anunciou que já deu início a uma investigação para resgatar o barco e descobrir as causas do naufrágio.

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