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Peça As Centenárias , com Andréa Beltrão e Marieta Severo, chega a São Paulo

SÃO PAULO ¿ Tive o privilégio de presenciar em 2007, no gracioso Teatro Poeira, em Botafogo (RJ), a divertidíssima comédia As Centenárias, protagonizada pelas ¿comadres¿ Andréa Beltrão e Marieta Severo. Agora, finalmente, chegou a hora e a vez do público paulistano: a peça faz temporada de sexta a domingo no Teatro Raul Cortez.

Michel Fernandes, especial para o Último Segundo |

Divulgação

Andrea Beltrão e Marieta Severo interpretam diversos personagens em "As Centenárias"

Escrita por Newton Moreno e dirigida por Aderbal Freire-Filho, duas carpideiras ¿ profissionais que ganham a vida chorando defuntos ¿ que escapam da morte chegando onde ela acabou de passar são as personagens interpretadas por Beltrão (Zaninha) e Severo (Socorro), ambas premiadas na temporada carioca, assim como Newton Moreno, que já havia se destacado com "Agreste" (atualmente em cartaz no Espaço dos Parlapatões).

Diferente do objetivo profissional de carpideira ¿ conhecida, também, como chorona ¿ que é emocionar parentes, amigos e conhecidos que frequentam os velórios, louvando passagens de sua vida, rezando, Andréa e Marieta narram causos ocorridos durante suas trajetórias de carpideira, desde quando as duas se conheceram ¿ Zaninha se encantou com Socorro quando esta chorava um morto.

Entre as histórias inusitadas, elas contam sobre o velório da mãe de Lampião, o velório em que o instrumento do defunto continuava vivo, o velório da esposa infiel de um coronel, entre outros causos que, centenárias no ofício, tem pra contar. Tudo com muito humor e versatilidade surpreendentes.

Às atrizes, podemos atribuir o título de comediantes, na acepção do termo referente à versatilidade que marcou os atores da Idade Média. É na época que surgem as trupes de commedia dell arte, em que os atores se apresentavam na rua, muitas vezes em palcos armados nas praças centrais dos feudos, e incluíam na apresentação malabares, aprimorada partitura corporal, canto e outras virtudes que mudaram a significação do termo comediante. E, nesse sentido, notamos um trabalho minuciosamente estudado pelas atrizes e, claro, com a brilhante batuta do mestre da direção Aderbal Freire-Filho na criação das personagens, utilizando como instrumento principal a voz e o corpo, sem se deixar levar um minuto sequer pelas facilidades do clichê.

Bonecos pernambucanos

Além das centenárias carpideiras, protagonistas da peça, Andréa Beltrão e Marieta Severo interpretam os demais personagens que aparecem nos velórios evocados em suas lembranças. Dinamizando e clarificando o procedimento de composição dos diferentes papéis, bonecos mamulengos, cuja técnica quem ensinou foi o mestre Vellinho, típicos das festas populares de Pernambuco, ocupam o lugar das narradoras-protagonistas, enquanto elas se vestem de outros papéis. Os bonecos são, muitas vezes, manipulados pelas próprias atrizes que utilizam, com muito talento, diferentes timbres de voz para alcançar a diferenciação das personagens.

O recurso da utilização dos tradicionais bonecos pernambucanos se alinha feito luva à estética popular buscada pelo diretor, além de evidenciar a versatilidade das atrizes. Fica clara a compreensão clara e certeira da técnica utilizada como unidade estética em "As Centenárias".

Newton Moreno, notório após a montagem de "Agreste", mostra que a contação de histórias é sua veia de interesse na dramaturgia. Os causos que mesclam narrativa e diálogos são interessantes e dotados de um interesse fabular sem o ranço da preocupação com a enfadonha e pouco criativa lógica realista.

O cenário de Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque é um encantamento à parte. Nele, está uma cortina em que estão pendurados dezenas de bonecos que dão o clima simbólico ao espaço cênico, um picadeiro em que, no centro, encontra-se um caixão e circundando o espaço, cadeiras, para aqueles que participam dos velórios. Alguns dos bonecos, obras de arte de seis pessoas diferentes ¿ Mestre Tonho, Ivy Garcez, Ivete Dibo, Waleska Laine, Mirian Mirana, Rondinelli Allemad ¿ são utilizados como os defuntos à chorar pelas duas carpideiras. Os figurinos complementam a idéia de tornar tudo um grande espetáculo circense, desprovido de quaisquer compromissos com a realidade tacanha e, sim, evidenciando o compromisso com a fábula, o jogo.

O ator Sávio Moll vive com destreza o papel da morte, seus disfarces e artimanhas. Manipula com destreza um boneco que esconde duplamente sua identidade, ou seja, fica à frente do ator, destacando o boneco durante a representação, e escondendo a real identidade da personagem. E, para não perder o signo da versatilidade, Sávio toca rabeca. "As Centenárias" é daqueles espetáculos inesquecíveis.

Serviço ¿ "As Centenárias" em São Paulo
Com Marieta Severo, Andréa Beltrão e Sávio Moll
Direção: Aderbal Freire-Filho
Sextas, às 21h30, sábados, às 21h, e domingo, às 17h
Ingressos: R$ 80 (sextas e domingos) e R$ 90 (sábados)
Teatro Raul Cortez
Rua Doutor Plínio Barreto, 285, Bela Vista
Telefone: (11) 2198-7701

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