SÃO PAULO - O escritor Paulo Coelho fez pesadas críticas ao ministro da Cultura, Juca Ferreira, em carta aberta publicada nesta quinta-feira em seu blog. Tudo porque Ferreira cancelou sua presença na Feira do Livro de Frankfurt, que começa na semana que vem. No evento, Coelho receberá uma homenagem por ser o escritor vivo mais traduzido em todo o mundo

Na carta, Coelho classifica o cancelamento de "completa e absoluta falta de respeito comigo, com meus editores nacionais e internacionais, com a Feira de Frankfurt ¿ já que sua presença tinha sido anunciada ¿ e com os meus leitores". Segundo o escritor, Ferreira justificou a desistência alegando que participará de um encontro de ministros da Cultura de todo o mundo.

"Não estou aqui para duvidar da palavra de um ministro do governo (...) Hoje mesmo procurei informações a respeito com pessoas ligadas a Ministérios da Cultura em outros países, e não encontrei absolutamente nada. Como confio no meu país, e um ministro é responsável pelo que diz, ele deverá dizer onde este encontro terá lugar, porque já sabemos quando ¿ dia 15 de outubro", escreveu Coelho.

O brasileiro é o convidado especial da conferência de imprensa de abertura da 60ª Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, um dos mais importantes eventos literários do planeta.

Leia abaixo a íntegra da carta aberta, intitulada "A deselegância do ministro da Cultura":

"No mês de março de 2008, quando minhas editoras no mundo inteiro resolveram dar uma festa comemorando cem milhões de exemplares vendidos, enviei um convite ao então Ministro da Cultura, Gilberto Gil. Uma festa dessas, além de ser um marco simbólico para o escritor, representa também uma oportunidade única para um ministro entrar em contato com mais de cem profissionais da área, e aproximadamente 300 jornalistas do mundo inteiro. Posteriormente entrei em contato com o Presidente Lula que, muito gentilmente, e com bastante antecedência, explicou que estaria na mesma ocasião recebendo um prêmio na Espanha.

Gilberto Gil deixou o Ministério, sendo substituído por Juca Ferreira, que também confirmou sua presença. Duas semanas atrás recebemos um comunicado da Embaixada do Brasil na Alemanha, com a programação oficial do ministro. Ontem eu jantava com um jornalista brasileiro, quando o ministro me telefonou. Para minha surpresa, disse que precisava cancelar sua presença em virtude de um encontro com outros ministros da cultura que seria realizado na mesma época. Ao ver minha reação de espanto, disse que tentaria remanejar sua agenda.

Não estou aqui para duvidar da palavra de um ministro do governo. Entendo que esses encontros são normalmente organizados com muita antecedência; hoje mesmo procurei informações a respeito com pessoas ligadas a Ministérios da Cultura em outros países, e não encontrei absolutamente nada.  Como confio no meu país, e um ministro é responsável pelo que diz, ele deverá dizer onde este encontro terá lugar, porque já sabemos quando ¿ dia 15 de outubro.

O que entendo, isso sim, é a completa e absoluta falta de respeito comigo, com meus editores nacionais e internacionais, com a Feira de Frankfurt ¿ já que sua presença tinha sido anunciada ¿ e com os meus leitores.

Isso em nada muda minhas atividades durante o maior evento literário do planeta. Continuarei abrindo a Feira de Frankfurt, como escritor convidado, junto com o Presidente da Feira e o Presidente do Estado de Hessen. Continuarei com a minha festa ¿ que contará também com a presença de Gilberto Gil, mas já na condição de amigo. Continuarei recebendo, durante a festa, o diploma oficial do Livro Guinness de Recordes, como o escritor vivo mais traduzido do mundo.  Continuarei recebendo no prêmio de Cinema pela Paz, durante o evento, por causa de um projeto realizado junto com meus leitores. Para a comunidade literária internacional, a ausência do ministro da Cultura do Brasil passará completamente despercebida. O que lamento é não poder, mais uma vez, tentar ajudar a literatura brasileira colocando o ministério da Cultura em contato com dezenas de editores que podiam, pelo menos, se interessar por algum dos excelentes autores que temos em nosso país. Lamento que jornalistas do mundo inteiro não tenham acesso ao que o ministro teria a dizer.

No Novo Testamento, Jesus conta a parábola de alguém que convida seus conhecidos para um banquete, e todos estão ocupados; quando o servo volta, o dono da casa pede então que convide os mendigos, os desempregados. Portanto, não quero que o ministro mude sua agenda ¿ já não me interessa mais sua presença e de seus convidados. Quero apenas que me devolva o convite; será entregue ao primeiro mendigo ou desempregado que passar na porta. Pelo menos, ele se divertirá um pouco. E eu me esforçarei o máximo para mostrar a todos  ¿ como aliás sempre faço em eventos ¿ que a literatura brasileira vai muito além do meu trabalho. Sem a ajuda ou colaboração de um ministro deselegante, que cinco dias antes da festa, depois de seus assessores e da embaixada brasileira confirmarem sua presença em vários emails, descobre que tem outro compromisso na sua agenda.

Juca Ferreira, meu convite de volta, por favor."

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