BRASÍLIA - Ao autorizar os ministros a fazer campanha para seus candidatos às eleições municipais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma recomendação clara para que eles mostrem aos eleitores as ações do governo federal, apresentando os avanços na economia, na área social, no setor de infra-estrutura com as obras do PAC. Avisou, também, que eles podem defender seus candidatos, mas sem atacar os adversários municipais que, por ventura, coabitem a larga base de sustentação do governo federal.

É justamente nesse ponto que reside o problema: com 14 partidos na coalizão governista, é inevitável que aliados federais se enfrentem nos municípios. Será uma operação complexa evitar os atritos que possam trazer dor de cabeça após a eleição; e realçar os feitos do governo Lula, transferindo votos apenas para o candidato do ministro, ao mesmo tempo que existem outros candidatos cujas legendas estão juntas no plano federal.

" O maior desafio é provar que o meu candidato é mais amigo do presidente Lula do que o meu adversário " , indica o ministro da coordenação política, José Múcio Monteiro, em tom de brincadeira. Múcio cita que em municípios como Panelas (PE), na zona da mata pernambucana - ele se impôs a estratégia de só fazer campanhas em Pernambuco - Lula tem 94,4% de avaliação ótimo ou bom.

Por causa disso, todos querem aparecer ao lado do presidente. Tem candidato que exibe, alegando ser presente, uma foto antiga de Lula. Quando questionado que a mesma está amarelada e Lula está ainda com cabelos pretos, completa: " Para você ver há quanto tempo somos amigos " .

No mesmo município, Múcio apóia o candidato Sérgio Barreto de Miranda, do PTB. Do outro lado, está Carlos Frederico Moreira Lima, do PDT, coligado ao PT. " Eu disse que o Brasil está bem, Pernambuco está bem e para Panelas ficar bem, é só votar em Sérgio. É Lula lá e Sérgio cá. No dia seguinte, o PT entrou na justiça e proibiu a frase, que tinha virado jingle de campanha " , recorda.

Outra ministra emblemática da Esplanada é a chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Preferida de Lula para sucedê-lo em 2010, Dilma optou por evitar gravações ou presença pública em locais onde a base estiver muito fragmentada. A exceção, obviamente, é o Rio Grande do Sul, onde ela tem a militância política pregressa.

No Recife, ela gravou mensagem de apoio ao petista João da Costa, apesar do confronto com Carlos Cadoca (PSC). Mas lá o próprio Cadoca autorizou Lula e Dilma a gravarem mensagem ao petista, resignado com a imensa dianteira que o candidato do PT apresenta em todas as pesquisas recentes. Em uma entrevista recente à uma rádio gaúcha, Dilma explicou como fazer para diferenciar a visão federal da disputa municipal. " Independente de quem se eleja, o governo federal tem obrigação de transferir recursos por causa da população. Mas tem uma coisa que é diferente. Eu tenho igualdade de projetos com alguns candidatos do Rio Grande do Sul e com outros, eu não tenho " , justificou.

A direção nacional do PT admitiu que não existe uma regra geral e a maioria dos ministros da legenda grava propagandas e participa de comícios mesmo em cidades nas quais o partido disputa voto a voto a prefeitura com outras legendas aliadas. O ministro da Justiça, Tarso Genro - que arquitetou esse modelo de coalizão quando era ministro da coordenação política - por exemplo, já gravou 150 mensagens para o horário eleitoral, visitou nove capitais e rodou o Rio Grande do Sul inteiro.

A partir de hoje ele estará de férias por uma semana e planejou visitar 25 cidades em cinco dias. Para não gerar ciúmes nas outras legendas, Genro reforça que respeita todos os partidos, mas, como ex-presidente do PT, tem missão partidária de pedir votos para seus correligionários. Já o também petista Fernando Haddad, ministro da Educação, adotou uma linha de campanha para evitar problemas: vai a eventos e grava mensagens para petistas " engajados com um projeto de educação municipal " . Nesse contexto, atrelou-se às campanhas de Marta Suplicy (São Paulo), Alessandro Molon (Rio) e Maria do Rosário (Porto Alegre).

Outro que resolveu dar um tempo nas atividades como ministro para mergulhar na campanha é Márcio Fortes (PP), titular das Cidades. Ele sai de férias no dia 23 e só volta no dia 2 de outubro, penúltimo dia de campanha autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nesse período, continuará andando pelo país em campanha. Ao longo das últimas semanas, Fortes não pôde reclamar de tédio: às 6h entrava no estúdio de gravações, onde permanecia até às 8h, 8h30. Cumpria expediente no Ministério até 12h30, corria para o estúdio. Retornava para a Esplanada, trabalhava até 18h30, 19h e, mais uma vez, gravações políticas até a meia-noite.

Vice-presidente do PP, Fortes disse que as gravações não beneficiaram apenas seu partido, mas outras legendas aliadas - desde que o PP tenha o vice na chapa ou faça parte da coligação formal. Em uma cidade do Paraná, soube que o ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), também participaria de um comício, mas em horário diferente. Menos mal que lá - ele não se recorda o nome do município - PP e PDT apóiam o mesmo candidato.

" Quando estou em campanha, não sou ministro, sou filiado ao meu partido. Não existe qualquer tipo de constrangimento nesses casos " , comentou o ministro das Cidades. " São mais dez dias sem ver mulher e filhos. Se fossem férias, estaria com eles viajando por aí " , disse.

"(Paulo de Tarso Lyra | Valor Econômico)"

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