Parada do Orgulho Gay de São Paulo esboça caráter político em sua 12ª edição

SÃO PAULO - No ano em que será realizada a 1ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (GLBTT) do Brasil, a Parada do Orgulho Gay de São Paulo, que ocorreu neste domingo, esboçou pela primeira vez um tom político. Com o tema ¿Homofobia mata! Por um estado laico de fato¿, a organização do evento tentou chamar a atenção do público para a necessidade da aprovação de projetos de lei que garantam a igualdade de direitos para os homossexuais.

Ana Freitas, repórter do Último Segundo |

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Marta Suplicy esteve presente em trio elétrico
Segundo o presidente a Associação da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, Alexandre Santos, a parada sempre foi política. A festa mostra que temos orgulho de ser o que somos, mas seu objetivo final é a conscientização sobre a igualdade de direitos entre todos. Os políticos não podem se guiar pela religião e transformar o Congresso no púlpito de uma igreja, comentou Santos, lembrando que o projeto de lei de criminaliza a homofobia (PL nº 122, de 2006) teve sua votação adiada no Senado Federal por pressão de grupos religiosos.

Relatora do projeto, a senadora Fátima Cleide (PT-RO) esteve presente em um dos carros da parada, assim como a deputada Cida Diogo (PT-RJ), que coordenadora a Frente Parlamentar pela Cidadania GLBTT, e a ministra do Turismo, Marta Suplicy, que é autora de um projeto de lei que tramita há 13 anos para regulamentar a união entre pessoas do mesmo sexo.

Entre a multidão que acompanhou o evento neste domingo, estimada em 5 milhões de pessoas pela organização, cartazes pregavam a tolerância por parte de evangélicos para a diversidade sexual. Se Deus é por nós, quem será contra nós?, dizia um deles, citando um trecho bíblico. Outro clamava pelo apoio contra o preconceito, o amor não é pecado. Lute contra a Homofobia religiosa", dizia.

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Muitos passaram mal por excesso de bebida

Apesar dos slogans e da tentativa de politizar a parada, o estilo

carnavalesco que permeou as outras edições foi ainda mais acentuado neste ano. Os três hospitais de campanha montados no início, no meio e no fim do desfile tinham atendido 500 pessoas, cinco vezes mais do que no ano passado, quando foram registrados menos de 100 socorros.

Nos leitos montados na altura do Parque Trianon, desde as 10h da manhã os médicos e enfermeiros já socorriam pessoas que tinham exagerado no consumo de bebidas alcoólicas. O estoque de soro, glicose e medição foi renovado no início da tarde para dar conta do fluxo de gente.

Desfile

Pouco antes das 13h, uma multidão se aglomerava na altura do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Em coro, foi feita uma contagem regressiva e cantado o hino nacional. Começava ali o desfile de 22 trios elétricos que, depois de duas horas, preenchiam as duas avenidas, num percurso de cerca de 3,5 km.

No primeiro carro, o presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays e Transexuais (ABLGT), Toni Reis, lembrou o público que, apesar de o País abrigar a maior parada gay do mundo, mais de 2.800 homossexuais foram mortos no Brasil nos últimos 20 anos. "Nós queremos que todos sejam tratados de forma igual perante a lei", clamou.

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Participantes capricharam na fantasia
Dali para a frente, não houve mais discursos ao microfone e a música dominou a festa. Os ritmos variavam entre música eletrônica, dance e axé e a animação do público se manifestava em coros, coreografias e pulos. Entre famílias e casais heterossexuais, travestis e drag queens chamavam a atenção com fantasias coloridas, algumas bem produzidas, outras nem tanto. Balões coloridos e bandeiras de arco-íris decoraram todo o trajeto da parada e completaram o cenário da grande festa.

Nos trios, convidados famosos como o apresentador Leão Lobo, as drag queens Leo Áquila e Salete Campari e o transformista Miss Biá acenavam para o público, que respondia empolgado. No chão, quem chamou muita atenção foi o travesti Andréa Albertino, que se envolveu em confusão com o jogador Ronaldo, no Rio de Janeiro.

Apenas o último trio não desfilou com caráter festivo. Vazio e coberto apenas por um pano branco, ele lembrava as vítimas da AIDS e da homofobia no Brasil. O trio é dedicado a todos que não puderam estar aqui com a gente hoje, por isto está vazio, vazio de suas presenças, disse Toni Reis.

Investimento

Um milhão de reais foi investido na 12ª edição da Parada do Orgulho Gay deste ano, segundo o secretário municipal de Participação e Parceria, José Ricardo Franco Montoro (PSDB). Deste total, a prefeitura de São Paulo cedeu R$ 450 mil, tornando-se a maior patrocinadora do evento.

Segundo a SPTuris, empresa municipal para promoção de turismo em São Paulo, a Parada Gay deve movimentar este ano R$ 189 milhões na cidade. O evento perderia apenas para a Fórmula 1 em São Paulo em termos financeiros.

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O prefeito Kassab esteve no evento
O desfile é também o segundo maior evento em número de turistas - perdendo apenas para a Virada Cultural. No ano passado, foram 327 mil visitantes, sendo 5% estrangeiros, na avenida Paulista. A Virada Cultural trouxe 400 mil turistas.

A expectativa da SPTuris é que a Parada Gay deste ano deva gerar ou manter por um ano uma média de 13,5 mil empregos diretos e indiretos, e mobilizar 52 setores da economia. De acordo com o órgão, o segmento hoteleiro da região da avenida Paulista tem cerca de 85% de ocupação desde o início da semana. Em abril, a taxa mensal no município já ficou em 70%, um recorde para o mês.

Segurança

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Público foi estimado em 5 milhões
Cerca de 1400 policiais militares e 200 agentes da Guarda Civil Metropolitana fizeram a segurança do evento. A Polícia Militar até criou uma cartilha para orientar os policiais sobre a importância da tolerância e do respeito. "Nesta parada, distribuímos para todos os policiais uma cartilha para reforçar a idéia sobre o que é homofobia e qual deve ser a postura no caso de qualquer incidente; a PM está aqui para garantir essa diversidade", declarou o comandante e supervisor da operação, coronel Álvaro Camilo.

Camilo destacou que a PM tem mostrado que trabalha bem com o público GLS em outras situações, e que os dois principais problemas costumam ser a ingestão exagerada de bebida alcoólica e pequenos furtos, cometidos por infratores que se aproveitam da ocasião. "A parada é um evento tranqüilo, o público que freqüenta, em sua maioria, não traz problema", analisou.

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