Para veteranos do ABC, trabalhadores de hoje estão acomodados

Por Carmen Munari SÃO BERNARDO DO CAMPO, São Paulo (Reuters) - Nos 50 anos do sindicato dos metalúrgicos do ABC paulista, militantes veteranos, que participaram das greves históricas do final dos anos 1970, acreditam que os trabalhadores de hoje estão acomodados.

Reuters |

Quem desafiou a ditadura militar e a proibição da realização de greves vê a organização sindical atual esbarrando na constante ameaça de desemprego e na mão-de-obra farta, além da precarização das relações de trabalho e da pouca consciência de classe. Ingredientes que somados não levam a reivindicações organizadas.

"Com mais oferta de mão-de-obra, os empresários deitam e rolam. Fazem terceirização e até sexteirização se deixar. No passado, tínhamos horror ao emprego sem carteira assinada", disse à Reuters Rubens Teodoro Arruda, o Rubão, de 71 anos, por três vezes vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do

ABC.

Atuante nas greves ao lado do então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, Rubão diz que naquela época a ditadura perseguia os trabalhadores que queriam se manifestar, mas agora a perseguição é de outro tipo. "O empregado não pode reclamar, há pouco emprego", afirma.

Apenas entre setembro do ano passado e março último, houve redução de 8 mil vagas de metalúrgicos como efeito da crise econômica internacional, segundo dados do Dieese.

Gilson Menezes, um dos líderes da greve da Scania de 1978, a paralisação que contagiou o ABC, diz que hoje não há motivação clara que una os trabalhadores.

"Naquele tempo, a gente falava em melhoria salarial, mas no fundo era liberdade democrática que queríamos. Hoje é mais difícil, os trabalhadores têm que estar atentos para manter o que já têm", afirma o ex-ferramenteiro que foi o primeiro prefeito petista do país, no município de Diadema, em 1983. Depois de um segundo mandato, hoje é vice na cidade.

Tesoureiro do sindicato e ex-deputado federal, Djalma Bom, de 70 anos, vê na ascensão de Lula à Presidência outro ingrediente para o freio em um sindicalismo mais forte.

"Acabou desarmando a organização sindical", disse. Também atuante nas greves ao lado de Lula, Bom acredita que falta um discurso ideológico aos trabalhadores brasileiros. "Não dá para construir nada com este imobilismo, é preciso conscientização", recomenda. "Lula não ficava só no discurso, fechou a cooperativa e o barbeiro e deu força para o departamento jurídico", lembra.

Em comparação à mobilização atual, os militantes lembram das assembléias de 1978, 1979, 1980, que precisavam de um estádio para abrigar os grevistas. O Vila Euclídes, em São Bernardo do Campo, reunia 80 mil a 100 mil pessoas em assembleias.

Lula esteve ligado ao sindicato desde 1969, quando ocupou a suplência da diretoria. Foi eleito presidente em 1975 e reeleito em 1978. Liderou a paralisações de 170 mil metalúrgicos em 1978, que contagiou o Estado de São Paulo, levando milhares de trabalhadores a seguir o mesmo caminho. No ano seguinte, com nova parada nas fábricas do ABC, estima-se que a greve tenha atingido a casa dos milhões.

Sobre as conquistas do movimento do ABC, Menezes não deixa por menos. "Os intelectuais e a Igreja ajudaram, mas o trabalhador é que mexe com a economia", disse.

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