Para Serra, candidatura à Presidência significa tudo ou nada

No início de 2006, o então prefeito de São Paulo, José Serra, liderava as pesquisas de intenção de votos para a Presidência, superando até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda debaixo do bombardeio de denúncias do escândalo do mensalão. Receoso e visualizando um PSDB dividido, Serra não arriscou e deixou a estrada aberta para outro tucano, Geraldo Alckmin, entrar na disputa.

Marcelo Diego, iG São Paulo |

Em 2010, o mesmo Serra foi colocado diante de um dilema: enfrentar uma nova e parelha corrida ao Planalto ou tentar uma reeleição, que seus aliados julgavam garantida, ao governo estadual. Dessa vez, o tucano optou pela primeira opção.

Aos 68 anos, Serra tenta pela segunda vez tornar-se presidente da República. A primeira foi em 2002, ano em que Lula foi eleito. A ambição é legítima no mundo político, todo político a tem. Serra deve ter pensado se iria querer encerrar sua carreira política como governador ou arriscar e tentar ter algo que faltava para completar sua trajetória. Em momento algum, neste ano, ele demonstrou que não iria concorrer. Ele sabe que é arriscado, mas criou condições para que não fosse uma aventura, diz o historiador Marco Antonio Villa, professor da Universidade Federal de São Carlos.

Para o  professor de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB), Ricardo Caldas, Serra teve que reinventar politicamente. Serra recebeu a sinalização de que era o candidato do partido e do presidente, mas posso afirmar que esta candidatura não existia em vários pontos do Norte e do Nordeste. Simplesmente não havia a candidatura José Serra. Naquela ocasião, a candidatura veio de cima para baixo. Agora é diferente, afirma.

AE
Serra em discurso de despedida no Palácio dos Bandeirantes nesta quarta-feira
A reinvenção se deu a partir de 2002, quando Serra perdeu para Lula a disputa pela Presidência. Após aquela derrota, dava a impressão de que a sua carreira estava encerrada, mas isso não aconteceu. Ele disputou uma eleição arriscada em 2004, contra uma prefeita bem avaliada, e foi bem sucedido. Em 2006, deu um passo maior, diz o historiador Marco Villa.

Em 2004, Serra disputou e venceu a eleição para a Prefeitura de São Paulo contra a então titular do cargo, Marta Suplicy. Um ano e três meses depois de empossado, porém, deixou o posto para seu vice, o democrata Gilberto Kassab, a fim de concorrer para o governo de São Paulo. Ganhou a eleição de 2006 no primeiro turno.

O professor Ricardo Caldas diz que a vida político-administrativa de Serra tem três fases distintas. A primeira no governo Montoro. A segunda no seu período de Brasília. A terceira, por conta do próprio tucano, a partir das vitórias em sua base eleitoral. São fases bem distintas. Nesta terceira fase, ele aprendeu a fazer acordos, mostrou estar 10 vezes mais experiente politicamente, muito mais flexível, articulador, razoável, equilibrado, afirma o professor.

O próprio José Serra usa um chavão político para explicar as razões de concorrer novamente à Presidência, contra uma candidata (Dilma Rousseff) apoiada pelo presidente Lula, cujos índices de popularidade estão sempre acima dos 70%: há certas batalhas na vida que você não escolhe, é escolhido.

Em 2006, Serra abriu mão da disputa diante do blefe de que Alckmin controlaria os diretórios estaduais. Não quis disputar uma prévia nacional e abriu mão daquela possibilidade. Agora, é a última oportunidade dele. Em 2014, estará com 72 anos. O momento dele é agora e ele deixou claro que não deixaria se intimidar outra vez, afirma o professor Ricardo Caldas. O ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves era também pré-candidato do PSDB e defendia a realização de prévias, mas, com a possibilidade cada vez mais reduzida disso acontecer, acabou retirando a postulação.

Para o historiador Marco Villa, Serra de 2010 é diferente do de 2002. Apesar de um presidente com alto índice de popularidade, estar hoje na oposição é mais favorável ao Serra. Ele vem de duas vitórias consecutivas, faz um governo bem avaliado e garantiu uma solidez na sustentação de sua candidatura, muito maior do que a de 2002, que fazia água por todos os lados. Ele aprendeu politicamente a necessidade de negociação. Além disso, ele não usa mais aquela linguagem de economista, usa um tom mais pessoal e humano, como ficou demonstrado no seu discurso de despedida.

Em 2002, apesar de ter o apoio do PMDB, que integrava sua chapa, na prática vários governadores do partido fizeram campanha para Lula. Mesmo o seu companheiro de partido Tasso Jereissati declarou apoio à candidatura de Ciro Gomes (PSB) para presidente, na ocasião. Além disso, com a economia em crise, Serra teve dificuldades em defender a administração Fernando Henrique Cardoso.

Fernando Henrique é a grande figura de nosso partido, não precisa de defesa. Quem precisa se defender agora é o governo Lula, diz o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

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