Para salvar filho, mãe voltou para casa que desabava

O instinto de mãe levou Jaqueline Batista a voltar para a casa que desabava, de onde foi atirada pela força das águas e da lama. A empregada doméstica dormia na residência de uma amiga, no Fonseca, em Niterói, com os quatro filhos, na noite de segunda-feira, quando uma forte chuva provocou deslizamentos em mais de 30 pontos da cidade. As três filhas conseguiram escapar, mas o filho, Anderson Batista, de 13 anos, ficou no local e, até o final de tarde desta quarta-feira, continuava soterrado.

Sabrina Lorenzi, iG Rio de Janeiro |

Arte iG


"Nem fui ao hospital porque tudo que eu queria era salvar meu filho", contou Jaqueline, enquanto caiam-lhe as lágrimas. Por um momento, Jaqueline deixou o orgulho de mãe substituir a expressão de tristeza: "Ele jogava sinuca muito bem. Queria ser policial, bombeiro ou marinheiro". Mas logo chorou novamente: "Eu tinha tanto cuidado com ele".

Anderson dormia com a mãe e a irmã mais velha na sala da residência que foi completamente destruída pelo deslizamento de terra. As duas estavam abraçadas no sofá, enquanto o menino dormia num colchonete. Mãe e filha foram arremessadas no quintal. Jaqueline chamou pelos outros filhos. Sem vê-los sair da casa, resolveu voltar, enquanto as paredes desabavam. Gritou novamente, mas não conseguiu chegar onde Anderson estava. Os donos da casa, Lenilce e Carlos Abreu, também morreram, com o filho Diego.

Durante o relato de Jaqueline, bombeiros procuravam os corpos das quatro vítimas da casa, 36 horas após o desastre, nas proximidades do Morro da Caixa D´gua, na localidade chamada de São José.

A filha de 16 anos, Karine, salvou a vida do casal que morava na casa com os pais. Os dois estavam cobertos de lama até a cintura, sem movimentos nas pernas, até que a jovem conseguiu puxá-los. Todos saíram correndo, juntamente com Bianca, outra filha de Jaqueline.  Outras pessoas foram salvas pelos próprios moradores na rua onde oito casa foram destruídas.

Os bombeiros apareceram no local na tarde de terça-feira, mas não conseguiram resgatar os corpos porque a casa dava choque .

Profissão bombeiro

Sem ajuda das autoridades, moradores fizeram o trabalho de resgate, usando suas próprias ferramentas. Serradeira, extensão para eletricidade e até uma retroescavadeira foram providenciados pelos moradores. Edson Silva, gráfico e técnico de enfermagem, retirava os escombros, ao lado de Mário Oliveira, policial reformado.

Hélio Motta
O morador Mário Oliveira serra a árvore

Famílias que não perderam parentes nem suas casas ajudavam os vizinhos que não tinham mais nada além das próprias vidas. Até cafezinho foi servido no local durante as buscas. Quando a retroescavadeira chegou, as pessoas comemoraram. Em seguida, bombeiros com cães farejadores foram recebidos com alívio.

Helio Motta
Bombeiros com cães farejadores

Mais de trinta pontos da cidade foram destruídos pela chuva. Deslizamentos de terra, desabamentos de casas, de estradas e de algumas das principais vias da cidade castigam a cidade desde segunda-feira. A rodovia Amaral Peixoto, que leva à região dos Lagos, foi bloqueada, assim como a estrada da Cachoeira e a Estrada Fróes, onde um barranco mudou a paisagem e destruiu parte da casa do iatista, Torben Grael , matando também uma pessoa.


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