Para parceiro de escalada, resgate de Bernardo é `praticamente impossível¿

Seblen esteve com montanhista e Kika na região há um ano. Ele viaja à Argentina hoje, mas acha que amigo deve 'ficar na montanha'

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Agência O Globo
Bernardo na Argentina, durante expedição em que quebrou a bacia. Não há previsão de resgate
Seblen Mantovani, companheiro de Bernardo Collares e Kika Bradford em outras duas escaladas na Patagônia, onde o brasileiro se acidentou, afirmou ao iG que “trazer Bernardo de lá é praticamente impossível”. Seblen viaja esta noite para a Argentina com Érica Collares, irmã do montanhista, tendo como principais objetivos ajudar a família e Kika a superar o trauma de ter acompanhado o amigo na empreitada e ter sido obrigada a deixá-lo na montanha.

Seblen esteve na mesma área com Bernardo, presidente da Federação de Montanhismo do Rio de Janeiro, e Kika em 2009 e só não participou desta viagem com a dupla por falta de recursos.

O montanhista carioca quebrou a bacia e teve hemorragia interna após uma queda na descida, próximo do cume do Monte Fitz Roy, aonde os dois não chegaram, por causa das más condições climáticas. Até este momento, ainda não há previsão de saída de uma expedição de resgate.

“Não dá para pensar em qualquer tentativa de resgate, por causa das condições climáticas. Ele deve ficar lá na montanha. Infelizmente, trazer Bernardo de lá é praticamente impossível, remotíssimo. Se ele estivesse na base da escalada já seria muito remota a chance de trazer ele vivo, porque a caminhada de acesso é longa, por glaciais, subindo e descendo montanha, e eles estavam muito próximos do cume, a menos de 300 metros”, disse Seblen, que não foi a esse ponto porque o tempo estava muito ruim.

O resgate por helicóptero, por exemplo, também é difícil porque exige piloto com muita experiência em montanha e equipamento adequado. “Lá, ventos de 80 km/h são corriqueiros”, afirmou.

Reprodução
O Monte Fitz Roy, onde o brasileiro Bernardo Collares se acidentou, em um dia de tempo bom, o que é raro
Seblen conversou por telefone com Kika, de quem é muito amigo, e contou que ela está muito abalada. “Poucas pessoas no mundo passaram por uma situação tão complicada quanto a que passou. Para descer, ela enfrentou tempo ruim e ainda deixou muito equipamento com Bernardo para tentar ajudá-lo”, disse o montanhista.

De acordo com o diretor de Meio Ambiente da Federação de Montanhismo do Rio, Delson de Queiroz, Kika não se machucou porque já tinha descido na corda.

Embora não seja uma escalada tão alta (3.375 metros) em comparação a outras, o Fitz Roy é tido como muito técnica e para montanhistas de alto nível, também pelas duras condições meteorológicas e pelas paredes verticais. “As pessoas se preparam a vida inteira para esse tipo de desafio, mas o imponderável existe. Sabe-se que pode acontecer, mas o que mais dói é a perda pela pessoa que ele é”, afirmou Delson.

De acordo com Seblen, Bernardo é um dos montanhistas mais experientes que conheceu. “Não foi por falta de experiência nem por imprudência”, disse.

Não foi o primeiro acidente grave de brasileiros escalando na América do Sul. Em 1998, outros montanhistas de elite morreram tentando atingir o cume do Monte Aconcágua, na fronteira da Argentina com o Chile, pela parede sul. Mozart Catão - primeiro brasileiro a subir ao Everest, ao lado de Waldemar Niclevitz -, Alexandre Oliveira e Othon Leonardos morreram após serem atingidos por uma avalanche.

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