Para oposição, lançamento de Dilma não pressiona Serra

Por Fernando Exman BRASÍLIA (Reuters) - Confrontados com o lançamento da pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) à Presidência da República, líderes da oposição negam que o movimento da petista aumente a pressão sobre o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), seu provável adversário.

Reuters |

Presidentes do PSDB, DEM e PPS também criticaram o discurso feito por Dilma no sábado, quando a pré-candidatura foi aclamada pelo PT no congresso nacional do partido. Na ocasião, a ministra prometeu manter a atual política econômica e defendeu o fortalecimento do Estado.

Possível candidato da oposição à sucessão presidencial, Serra tem evitado colocar-se no debate eleitoral. Nos últimos meses, aliados instaram-no a firmar-se como um contraponto à ministra. Mas Serra tem dito que o governo paulista será sua prioridade até o início de abril, quando expira o prazo para a desincompatibilização estabelecido pela legislação eleitoral.

"O interesse do governo é trazer o Serra para o debate. Não tem por que precipitar, não tem por que entrar em um processo de ansiedade", argumentou à Reuters o presidente do PPS, Roberto Freire, lembrando que o governador paulista mantém a liderança nas pesquisas de intenção de voto mesmo sem ter se colocado publicamente como pré-candidato.

Para o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), a cerimônia de lançamento da pré-candidatura de Dilma pelo PT não muda em nada os planos da oposição, uma vez que a ministra já vinha agindo como tal.

"Ninguém olhou para ela nos últimos dias sem ser como pré-candidata", ironizou o parlamentar.

Presidente do DEM, o deputado Rodrigo Maia (RJ) assegurou que o evento promovido pelo PT não gerará tensões na base de apoio a Serra.

"Essa questão está bem resolvida. A nossa questão é só esperar março", destacou Maia.

O DEM, que enfrenta crises políticas no Distrito Federal e em São Paulo, já esteve dividido entre apoiar Serra ou o também tucano Aécio Neves, governador de Minas Gerais, para a disputa presidencial.

DISCURSO DIRECIONADO

A oposição também reagiu ao discurso da ministra realizado após a aclamação. Dilma afirmou que quer seguir o caminho iniciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem "retrocesso, nem aventuras".

Prometeu ampliar as ações sociais e defendeu o aumento do papel e do tamanho do Estado, além de assegurar a manutenção do equilíbrio fiscal, o controle da inflação e a política de câmbio flutuante.

"Alguns falam todos os dias de 'inchaço da máquina estatal'. Omitem, no entanto, que estamos contratando basicamente médicos e profissionais de saúde, professores e pessoal na área da educação, diplomatas, policiais federais e servidores para as áreas de segurança, controle e fiscalização. Escondem, também, que a recomposição do corpo de servidores do Estado está se fazendo por meio de concursos públicos", destacou Dilma no sábado.

O presidente do PSDB avalia que as falas de Dilma tinham alvo certo. "O PT fez um discurso para os movimentos sociais, que eles perderam em grande parte", comentou, argumentando que Estado forte é aquele que tem agência reguladoras fiscalizadoras, e não politizadas.

"A ministra fez um discurso em que deu uma no cravo e outra na ferradura. São os chavões de sempre."

O presidente do DEM reforçou o coro, dizendo que Dilma utilizou uma estratégia já aplicada pelo PT no passado, que tenta tachar a oposição de privatista.

"Não vi nada de novo no discurso, no que ela quer representar ou o que ela diz que a oposição representa", pontuou.

Na disputa presidencial de 2006, o candidato derrotado Geraldo Alckmin (PSDB) foi tachado por Lula, então candidato à reeleição, de privatista e não conseguiu se livrar da pecha.

Para o presidente do PPS, Dilma não revelou seu projeto para o país. Segundo ele, a defesa de um Estado forte é "vazia" e, no limite, pode gerar governos autoritários.

Referindo-se ao colapso da União Soviética, Freire lembrou que no passado a esquerda fortaleceu o Estado como meio para realizar uma revolução, estratégia que foi "derrotada".

"A esquerda que há no mundo mais consequente não tem mais essa concepção de idolatria de Estado forte. Na crise (financeira global), o Estado fez o papel próprio do capitalismo, que foi salvar o mercado", argumentou.

O PPS sucedeu o Partido Comunista Brasileiro e hoje é aliado das siglas conservadoras.

MERCADO

O discurso de Dilma também repercutiu entre os analistas do mercado financeiro. A consultoria de risco político Eurasia Group disse em um informe que as declarações sinalizam o que esperar de uma eventual administração Dilma.

Na análise, o Eurasia comenta o comprometimento de Dilma, se vencer as eleições, de manutenção da política econômica. "A mensagem é um bom indicativo do que se esperar de sua administração."

Para a MCM, a ministra terá de conter as demandas radicais de alas do PT.

"Esse será um constante desafio para Dilma durante a campanha e, caso seja eleita, em seu governo: compatibilizar pragmatismo com a pressão mais esquerdista de amplos setores do PT. Lula soube fazê-lo muito bem. Dilma ainda precisa provar que será capaz de seguir o mesmo caminho", destacou a MCM em comunicado.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG