Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - Indústrias processadoras e produtoras de soja do Brasil formaram uma associação para garantir a oferta da oleaginosa não-transgênica aos seus principais clientes, especialmente dos países da União Européia, que impõem algumas restrições ao produto geneticamente modificado.

A Associação Brasileira de Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange) quer, assim, consolidar o país como o principal fornecedor global do grão convencional, assegurando que não falte o produto demandado pelos europeus, como ocorreu no passado.

A UE importa 36 milhões de toneladas de soja e farelo por ano de todos os seus fornecedores, de produtos transgênicos ou não. E o Brasil, segundo exportador mundial da oleaginosa, fornece pouco mais da metade das necessidades européias.

'Já há alguns anos temos observado espaço para trabalhar com não-transgênicos, e com a associação queremos dizer em alto e bom som que, enquanto o europeu estiver disposto a comprar não-transgênicos, estamos aqui para produzi-lo', disse a jornalistas o presidente da Abrange, César Borges de Sousa.

A Abrange, que nasceu com cinco empresas nacionais (Grupo André Maggi, Caramuru, Imcopa, Vanguarda e Brejeiro), estima a demanda européia por soja e farelo não-transgênicos em 20 por cento do total das importações do bloco, ou algo entre 7 e 8 milhões de toneladas.

As cinco empresas integrantes da Abrange movimentam cerca de 6 milhões de toneladas da oleaginosa não-transgênica --algumas companhias integrantes da associação também trabalham com o produto geneticamente alterado.

'No ano passado, não conseguimos atender a toda a demanda (por não-transgênicos)', disse Johnny Drescher, gerente da Mesa de Farelos da Imcopa, com dez anos de experiência na comercialização de não-transgênicos.

A paranaense Imcopa negocia 2 milhões de toneladas de soja não-transgência por ano, produzindo 1,5 milhão de toneladas de farelo, a maior parte para exportação.

Mas, segundo integrantes da Abrange, o grande desafio do setor é garantir o fornecimento da matéria-prima, considerando que a produção de soja transgênica no Brasil já ocupa cerca de 60 por cento da área plantada no país.

DIFICULDADE COM PRÊMIO

Nesse contexto, a Abrange tem o objetivo de combater a idéia de que faltará soja convencional no Brasil. Mas para isso quer sinalização dos compradores e garantia de prêmio para a soja não-transgênica.

'É fundamental planejamento, não se encontra do nada 500 mil toneladas de soja não-transgênica durante a safra', disse Drescher, observando que as indústrias precisam saber do interesse antes do plantio, para poderem combinar com os agricultores.

A Abrange não quis comentar de quanto seria o prêmio pago, mas há indicações de que seria em torno de 5 por cento do valor do produto em momentos de preços mais firmes.

O prêmio, argumenta a Abrange, é necessário para cobrir as despesas com segregação do produto, seja no transporte ou na armazenagem, além de servir de incentivo para o agricultor optar pelo grão convencional --qualquer 'contaminação' transgênica inviabiliza o pagamento do prêmio.

Segundo a associação, o momento atual, de preços mais altos em relação à média histórica, não é favorável para a negociação de um prêmio com os compradores no destino final. Além disso, os países da Europa têm substituído o grão importado por outras oleaginosas produzidas localmente.

'Tem que esperar um pouco, no inverno europeu volta a ter um aquecimento desse mercado, para falar em prêmio não é um bom momento, porque o pessoal está achando caro', disse o representante da Imcopa.

A associação, além da Europa, afirma vislumbrar outros destinos para aumentar as exportações de não-trangênicos, como a Coréia do Sul, além do potencial mercado do Japão, que utiliza apenas soja convencional para produzir shoyu ou tofu.

'Quem sabe, com a associação, possamos ter certas regiões do país que se dediquem mais à soja não-transgênica', destacou Sousa, também um dos proprietários da Caramuru.

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