Para elas, loucura é ter um filho apenas

O Dia das Mães nas casas de Joanisa Ascava, Darlene Bonfim, Maria Mariana Oliveira e Juliana Arantes será agitado. Juntas, elas têm 20 filhos. De famílias de classe média, essas mulheres optaram por contrariar as estatísticas e deixar a casa cheia. ¿Desde criança sempre tive vontade de ter seis filhos¿, diz Joanisa Ascava, de 49 anos, mãe de 5 filhos biológicos e um adotivo.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mães citadas poderiam ser da década de 70, quando a média de filhos por mulher era de 5,8. Hoje, são exceções. Conforme o Instituto, em 2000, a taxa de fecundidade caiu para 2,3 filhos e, em 2008, passou para 1,9 filho por mãe. Conheça a história dessas mães:

"Amo ser mãe em tempo integral"

Juliana Yazigi Arantes, de 38 anos, largou a carreira de engenheira civil com o nascimento do seu primeiro filho, João Paulo, de 12 anos, e diz não sentir falta. Tenho amigas que dizem que não aguentariam, mas eu amo ser mãe em tempo integral, afirma.

Arquivo pessoal

Juliana com o marido e os CINCO filhos

Ela considera que vir de uma família grande, com mais três irmãos, intensificou seu desejo de ter muitos filhos. Adorava a casa cheia, diz. Hoje, afirma que gosta de levar amigos dos filhos para a sua casa aos finais de semana. Às vezes, chega a ter 15 crianças em casa, diverte-se.

Casada com um pecuarista, Juliana conta com o auxilio de uma babá, além de empregada e cozinheira, mas afirma que é ela quem dita as regras na educação dos filhos. É um trabalho árduo, exaustivo. Acordo 6h30, levo para a escola, natação, acompanho tudo. Não gosto de deixar só com a babá, gosto de cuidar, diz.

Juliana conta que ter cinco filhos requer diversas adaptações - uma delas nas viagens, quando não cabem todos no carro. É uma peregrinação. Temos que ir de van, afirma.

No entanto, se dependesse somente de Juliana, a família seria ainda maior: por mim eu teria o sexto, mas meu marido operou, disse que já estava bom.

"Se pudesse, teria filhos igual a minha avó"

Joanisa Ascava, de 49 anos, acredita que tem gente que nasceu para ser mãe, como ela própria. De tudo que faço, o que mando bem mesmo é como mãe, brinca.

Desde criança, afirma que pensava em ter seis filhos, mas a mãe a desestimulava. Dizia que quando eu tivesse dois não ia querer ter mais, conta. Não foi o que aconteceu. Joanisa teve uma escadinha: Lívia, de 25 anos, Caio, 24, Daniel, 22, Luísa, 18, e Arthur, 17.

Todas as suas gravidezes foram de risco e ela enfrentou complicações como deslocamento de placenta, ameaças de aborto e parto prematuro. No nascimento da filha mais velha, necessitou, inclusive, de transfusão de sangue. Nada que a desanimasse, porém, no plano de ter uma família grande. Nunca pensei em parar, diz.

Já com cinco crianças, Joanisa encontrou Letícia, com 3 meses de idade, portadora de Síndrome de Down, em uma instituição de menores. Ela não tinha forças nem para mamar. Trouxe-a para minha casa sem nem conversar com meu marido, lembra ela, que adotou a menina.

Esposa de um médico da cidade de Tatuí, no interior de São Paulo, Joanisa admite que a boa situação financeira permitiu que o seu desejo de ter muitos filhos se concretizasse. Hoje, cinco filhos estudam em escolas ou faculdades particulares e um cursa universidade pública. Como moram em outras cidades em razão dos estudos, ela diz que a sua casa fica um tédio durante a semana. É insuportável, muito irritante colocar uma coisa no lugar e ela permanecer lá, brinca. Na sexta-feira, quando eles vêm para casa, muda até o ar. É aquela bagunça, acrescenta.

Joanisa diz que teve babá por poucos meses e não se intimida em afirmar que a mulher deve abrir mão do trabalho pela família. Aconselharia trabalhar fora só quem precisa muito porque filho requer assistência. O ideal seria trabalhar só meio período, considera.

A mãe conta que ter uma família numerosa requer também jogo de cintura para lidar com as piadas. Já ouvi que não podiam convidar a família Ascava para festas, que só a gente ia lotar o lugar, ri ela que diz sempre levar na brincadeira os comentários.

Vinda de uma família em que a bisavó teve 24 filhos e a avó, 17, Joanisa brinca que ainda não está satisfeita com os seus seis: se pudesse seria igual a minha avó.

"Não fui inconsequente

Arquivo pessoal

Darlene com o marido e os CINCO filhos

Quando engravidou do 5º filho - Marcos, hoje com 13 anos - a farmacêutica Darlene Bonfim, de 52 anos, diz que ouviu muitas pessoas perguntarem se ela era irresponsável. Não fui inconsequente. Ele é fruto do amor tanto quanto o primeiro, respondia ela, que é mãe também de José Luis, de 28 anos, Emanuel, 26, Renato, 23, e Paulo, 20.

Darlene, que sempre trabalhou fora, diz que criou regras na sua casa para dar conta da prole. Uma delas foi ensinar os filhos a ajudarem nas tarefas domésticas. Quando tive o 5º fiz uma escala para cuidarmos dele. Quem não gostava de trocar fralda, dava mamadeira, afirma ela, que ainda hoje mantém algumas regras. Se não chego até as 19h, alguém inicia a preparação do jantar, afirma.

Para ela, ter muitos filhos ajudou a criar senso de justiça e igualdade em todos. Entre as histórias que recorda, está a vez em que viu dois filhos brigando pelo resto do refrigerante e medindo com régua os copos. Joguei tudo na pia e não falei uma palavra, conta Darlene, que diz ser lembrada até hoje pelo ato educativo.

A farmacêutica conta também situações engraçadas que viveu, como em um Dia das Mães em que falou para o marido que precisava de meias. Daí, todos os cinco me deram meias. Tinha meia fina, meia de lã, meia calça , meia curta..., ri. Para este domingo, diz esperar lembranças diferentes. Acho que fiz homens melhores que meu marido para dar presente, brinca.

Em sua opinião, os casais deveriam conversar mais sobre o planejamento familiar e, quando necessário, abdicar de bens materiais para ter uma família maior. Meus filhos não foram infelizes por terem aberto mão de algumas coisas, considera.

"A maternidade é um grande encontro"

Divulgação

Mariana e os QUATRO filhos

Quando deixou o trabalho na televisão para se dedicar integralmente à família, a escritora e atriz Maria Mariana de Oliveira, de 36 anos, autora da série Confissões de Adolescente foi taxada de louca. "As pessoas perguntavam se eu tive depressão pós-parto ou se era o marido que havia me obrigado a largar tudo", afirma, acrescentando que só agora sabe o que é trabalhar de verdade.

Para os outros era difícil entender que ela havia optado por explorar plenamente a experiência da maternidade. Eu estava em busca de respostas e valores e ser mãe me mostrou esse caminho, afirma.

Segundo ela, deixar o trabalho foi uma opção natural. Não saberia fazer de outra forma. Ter filhos é tão fascinante que eu seria incapaz de ter quatro e deixá-los na mão só da babá, afirma Mariana, que é mãe de Clara, de 9 anos, Laura, 7, Gabriel, 5, e Isabel, 2.

Mariana sonhava com uma família grande, mas não imaginava que chegaria aos quatro. Com a minha primeira filha adorei a maternidade, daí fui querendo um depois do outro, afirma, explicando que todos foram planejados.

Durante os últimos dez anos, ao mesmo tempo em que criava as crianças, Mariana se dedicou a escrever o livro Confissões de Mãe, lançado na última quinta-feira no Rio de Janeiro.

A obra, feita em forma de carta aos filhos, conta sobre a experiência de Mariana na criação das quatro crianças. Ter filhos é um grande trabalho de autoconhecimento. Quando olham de fora, as pessoas acham que a mulher entrega tudo em função da criança, mas, na verdade, é uma entrega para si mesma, considera.

Para quem ainda não se decidiu sobre a maternidade, Mariana é enfática: está marcando bobeira, é imperdível.

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