Para críticos, bala ponta oca aumenta "extermínio" pela polícia

Especialistas em Segurança Pública apontam `escândalo¿ em uso de projétil

Bruna Fantti e Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro |

Especialistas em Segurança Pública consultados pelo iG consideram que o uso indiscriminado de munição de ponta oca é um risco para a população e aumenta o “extermínio” policial. A Anistia Internacional, entidade de direitos humanos, já se manifestou contra o uso desse tipo de munição, quando foi adotada na Suíça.

No Rio de Janeiro, onde as polícias são responsáveis por mais de 1.000 mortes por ano – ou mais de 15% do total de homicídios –, o temor é que o uso do projétil aumente o número de vítimas.

Para o coordenador do Programa de Controle de Armas do Viva Rio, Antônio Rangel, o uso de munição de ponta oca é “um equívoco” porque “estraçalha o corpo” e deve ser usado em casos excepcionais.
“Essa munição estraçalha o indivíduo e reduz a chance de sobrevivência. É um equívoco da concepção de extermínio do criminoso e de sua prisão, imobilização. Devemos buscar a baixa letalidade. Aqui o primeiro passo é dar o tiro para matar. É munição de extermínio, para uso excepcional. Querer banalizar esse uso não é possível”, disse Rangel.

O sociólogo Ignácio Cano, da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), afirmou que o uso da munição é “um escândalo”. “Não acredito que estejam usando isso. Essa munição é proibida [pela Convenção de Haia]. Se usam, é um escândalo, é proibida para guerra. Não tem o menor cabimento usar isso em segurança pública, porque maximiza o impacto, o ferimento é muito mais amplo. É mais letal e causa sofrimento ainda mais desnecessário”, afirmou Cano.

Para Cano, o uso do projétil ponta oca é uma contradição com a diretriz de reduzir a letalidade policial no Rio. A Secretaria de Segurança anunciou a compra de carabinas para substituir fuzis, com o objetivo declarado de diminuir a letalidade policial.

Outra preocupação é com o maior risco de mortes de vítimas de balas perdidas. Esses incidentes somaram 704 atingidos desde 2007 – sendo 49 mortos. Embora os defensores da hollow point aleguem que é mais segura porque não transfixa o alvo, caso um inocente seja atingido, a chance de morrer é maior.

Para Paulo Storani, ex-instrutor de tiro da PM do Rio e professor do Instituto Universitário de Políticas Públicas e Ciências Políticas da Universidade Cândido Mendes, “é preciso desconsiderar a letalidade nesse momento, porque ambas são letais, e a ogival tem maior risco de atingir terceiros”.
“Temos de considerar que se está falando de emprego de uso potencial letal de força, seguindo o uso progressivo de força. A ogival tem maior efeito colateral. O que temos é de pensar tecnicamente no aumento do poder de parada, e a munição de ponta oca atua diretamente nessa deficiência da ogival.”

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