Para ciclistas e pedestres, São Paulo está preparada só para carros

SÃO PAULO ¿ Apesar da construção de novas ciclovias e da revitalização de algumas calçadas, as pessoas que trocaram os carros por bicicletas e pelo trajeto a pé afirmam que São Paulo ainda não está preparada para os ¿transportes alternativos¿.

Juliana Simon, do Último Segundo |

Com 370 mil adeptos, segundo estimativa do Ibope/Nossa São Paulo, o ciclismo aparece como uma das principais opções para fugir dos congestionamentos e da busca por alternativas mais saudáveis e menos poluentes de transporte. No entanto, com 23,5 km de ciclovias implantadas até agora, a cidade está longe do ideal para a prática. 

Se em nosso País houvesse um respeito pela vida não seria necessário ciclovias ou ciclofaixas para que as pessoas pudessem pedalar com sensação de segurança. Como não é a realidade da nossa cidade, sou a favor da construção de vias específicas, isso poderá encorajar muitos motoristas a deixarem seus carros em casa e optar pela bicicleta, diz André Pasqualini, que percorre, em 40 minutos, 13 km para ir da sua casa, no Campo Limpo, até seu trabalho, na Vila Olímpia.

Para o carioca João Guilherme Lacerda, que mora em São Paulo há quatro meses, nem mesmo o Rio com mais de 140 km de vias segregadas está preparado para os ciclistas.

Locais adequados para estacionamento também é outro problema. Willian Cruz, que também é ciclista, acredita que é necessário que o comércio e serviços forneçam infra-estrutura para receber o ciclista. Um simples local seguro para estacioná-la e com suportes para prendê-la com uma corrente, de preferência com um banheiro por perto para que seja possível trocar de roupa, já resolve o problema do ciclista, diz. 

São Paulo possui no momento zero km de ciclovias, pela própria definição do Código Brasileiro de Trânsito do que é uma ciclovia. Hoje, temos trajetos que ligam o nada ao lugar nenhum, dentro de parques, diz Waldomiro Souza. 

Para os ciclistas, o que faz mais falta é a impossibilidade de integração da bicicleta com outros meios de transporte. Willian Cruz, também ciclista, afirma que o ideal é integrar as bicicletas ao fluxo, em vez de segregá-las em ciclovias. Para ele, isolar os ciclistas do trânsito faz os motoristas acreditarem que as ciclovias são o único local onde elas devem trafegar, hostilizando e colocando em risco os ciclistas quando estiverem em vias que não dispõe de ciclovia.

Integração também para pedestres

Eduardo Daros, presidente da Associação Brasileira de Pedestres (Abraped), também aponta a integração como principal carência da cidade. Em março, Daros encaminhou ao prefeito Gilberto Kassab, um pedido para que houvesse a restauração do corredor 9 de Julho ¿ Santo Amaro. 

Hoje, é extremamente penoso para os pedestres - proibitivo para os portadores de necessidades especiais - transitar a pé entre as Avenidas 9 de Julho e Paulista, galgando ou descendo rampas íngremes, particularmente em dias chuvosos ou de muito sol, afirma.

Eduardo cita Curitiba como exemplo de integração. Com os chamados ônibus metronizados, com pontos de parada cobertos, a cidade possibilita que o trajeto do pedestre até seu destino seja feito com segurança e com conforto.

"Até atravessar uma rua é difícil por aqui", diz Willian Cruz. Ele usa como exemplo a travessia a pé da Avenida Juscelino Kubitschek. Dependendo do ponto onde tenta atravessar, você tem que fazer umas quatro travessias para conseguir continuar o seu caminho, ou atravessar metade e andar um pedação pela calçadinha que fica entre as pistas para poder terminar a travessia, diz. 

Manchas de revitalização

Nos últimos anos, a prefeitura implantou em alguns pontos da cidade projetos de revitalização das calçadas, tanto para ampliá-las, como para a troca do piso. As obras na Avenida Paulista, ainda não concluídas, e na Avenida João Cachoeira, no Itaim Bibi, são alguns dos exemplos.

Para Daros, os projetos são bem-vindos, mas insuficientes. Na Paulista temos uma bela calçada, mas nas ruas próximas, como a Augusta, por exemplo, tudo continua igual, diz. Para ele, o que existe são manchas de revitalização, concentradas, principalmente, nas áreas nobres da cidade.

As gestões ainda não encararam o problema totalmente. Não adianta realizar projetos isolados um dos outros. Deve-se ter, antes de tudo, uma rede de melhorias em calçadas, transporte público e nas vias para carros e bicicletas, afirma.

Vantagens dos alternativos

Para ciclistas e pedestres as vantagens principais de deixar de usar os carros são os benefícios para a saúde do indivíduo e da cidade, que já sofre com congestionamentos e poluição. Um ciclista a mais é um carro a menos, ou menos uma pessoa para sobrecarregar os transportes públicos da cidade. Ou seja, além de chegar mais bem disposto ao trabalho, o ciclista não atrapalha a vida de ninguém, seja no espaço limitado das ruas, ou dentro dos ônibus e trens, diz João Lacerda.

André Pasqualini aponta o aspecto de convivência social que se alcança fora dos veículos. De bicicleta conseguimos conversar com outros ciclistas e até mesmo motoristas, interagimos com a cidade, nos aproximarmos da realidade o que acaba gerando um sentimento de paixão por ela, diz.

Apesar da falta de preparo da cidade e de muitos de seus habitantes para deixar o carro em casa, Waldomiro Souza diz que pedalar em São Paulo é dar as costas a quem você não confia. Mas sigo pedalando, quixotescamente.

    Leia tudo sobre: ciclistas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG