Para Cesar Maia, futuro presidente terá que governar com sindicatos e movimentos sociais

RIO DE JANEIRO - Em entrevista ao iG, o ex-prefeito carioca Cesar Maia avalia que o futuro presidente terá que governar com sindicatos e movimentos sociais

Rodrigo de Almeida e Luiz Antonio Ryff, iG Rio |

André Durão
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Cesar Maia avalia que futuro
presidente terá que governar com sindicatos

iG - O governo Lula e o PT são fortemente ligados aos movimentos sociais e sindicais. Como o senhor avalia que eles reagirão na eventualidade de vitória da oposição na próxima eleição?

Cesar Maia - O PT se dissolveu dentro do governo. Se ele perder a eleição em 2010 vai retomar o modelo de oposição que fazia anteriormente? Não. Pode ser que a CUT, sim. Pode ser que os movimentos sociais, sim. Mas o PT como tal não tem nenhuma autoridade moral como tinha antes de chegar ao poder. O que nos espera, do ponto de vista partidário no próximo governo, é uma oposição sem saber direito o papel que cumpre.

iG - Como foram o PSDB e o DEM durante todo o governo Lula.

Cesar Maia - Certamente. Vão fazer oposição pelos movimentos sociais, que perdem o patrocínio gigantesco que têm no governo Lula e vão querer recuperar esse patrocínio. Os pelegos que saem do governo ganhando R$ 40 mil voltarão a ganhar R$ 1.200. Quem não acumulou vai sofrer.

iG - O ex-presidente Fernando Henrique atacou o que chamou de subperonismo do governo Lula, criticando o aparelhamento do Estado.

Cesar Maia - O Lula está cometendo um erro. Está olhando seu governo como o início de um novo ciclo. Não é. É o final do ciclo de democratização do país. O início do novo ciclo vai ser daí para frente. Ele cumpre um papel importantíssimo de desestressamento das relações políticas e sociais. Para dentro da política ¿ vide relações com o PMDB, PP e PTB ¿ e com os movimentos sociais. O PT é um partido de dois vetores: a esquerda revolucionária e o movimento sindical. É um partido híbrido. Em 2005, a crise do mensalão desintegrou o comando revolucionário do PT, incluindo José Genoino e José Dirceu. Quem assume o comando do partido? O movimento sindical. O sindicalismo passa a controlar o PT e o governo.

iG- O senhor falou em novo ciclo na eventualidade de PT perder a eleição. Como seria esse novo ciclo?

Cesar Maia - Não sei. Num discurso em São Paulo, Aécio coloca uma questão muito importante: quem conseguirá governar dando continuidade à estabilidade política e social que inquestionavelmente o governo Lula nos deixou? Ele fez a crítica administrativa, disse que poderíamos ter ido mais longe na questão econômica, mas ressaltou que a estabilidade política e social tem de ser mantida. O que acontecerá quando um sindicalista da CUT deixar de ganhar R$ 40 mil? Ele fará oposição sistemática para ganhar isso de volta. O Aécio lembra que essas relações têm de ser mantidas, mas precisam se tornar orgânicas, não de cooptação. Sinaliza, portanto, que a presença vai ter continuidade em novas bases.

iG- O senhor realmente avalia que, sem essa continuidade, há riscos à estabilidade política?

Cesar Maia - Não tenho dúvida. Errará quem pensar numa linha de rigidez contra esses movimentos. Se alguém imagina que vai governar da forma mais técnica possível, daquilo que recomenda o Milton Friedman (economista norte-americano ganhador do Nobel, um dos pais do pensamento liberal)... O Estado não funciona assim.

iG - Nada cola no presidente Lula. Por que nenhuma crise abala a popularidade dele?

Cesar Maia - Calma. Não existe isso. É uma questão de tempo. Uma blindagem, uma fantasia, pode ser desmontada em poucos meses, um ano, quatro anos. O presidente tem de ter cuidado. Com outros já foi assim. O Sarney tinha uma popularidade lá em cima no Plano Cruzado. Estava no auge, mas o Cruzado desmontou e a sensação da população foi: Fui enganada. Como o governo Lula não tem marca, não tem projeto, se apega ao Bolsa Família, apóia-se no PAC, isso é um risco.

iG- Graças aos programas sociais, o governo Lula permitiu uma grande mobilidade social. Isso não conta?

Cesar Maia - Isso gera memória? Gera marca? Acho que não. O que anoto na minha memória a respeito de JK? Ele ter bolinado a Kim Novak no Copacabana Palace? Ser pé de valsa? Ou a marca do desenvolvimento no governo dele? No caso do governo Lula, é preciso fazer um esforço enorme. O Lula não tem um legado.


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