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“A gente não faz planos. Nossa luta é diária"; conheça a Fazenda da Esperança em Guará

07/05 - 21:20 , atualizada às 09:04 12/05 - Luiz Raatz, repórter Último Segundo

GUARATINGUETÁ - As mãos tentam explicar o que a voz não consegue: como resistir às drogas. Aos 20 anos e viciado em crack desde os 14, João Paulo Martins Silva é um dos jovens da Fazenda da Esperança que vão receber a visita do papa Bento 16 no próximo dia 11 de maio.

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    “Você sabe que vai magoar sua família e não quer usar. Mas aquilo é muito mais forte do que você. Eu ia para boca chorando porque não queria usar drogas”, diz João Paulo sobre as drogas.

    Em meio aos preparativos para receber o papa, ele e os outros jovens que vivem e trabalham na fazenda tentam não criar muita expectativa para o futuro. “A gente não faz planos. Nossa luta é diária. Da outra vez que estive aqui, fiz planos de sair, fazer cursos e arrumar um emprego e acabei voltando para as drogas”, conta. 

    João Paulo morava em São Paulo e está na fazenda - por causa da indicação de uma amiga - desde janeiro deste ano. No ano passado, ficou três meses em Guaratinguetá. “Eu levei meio na brincadeira”, reconhece. 

    Volltou a São Paulo e ao crack. A seriedade veio quando foi expulso de casa pela mãe. Com o dinheiro apenas para voltar à fazenda, pegou o ônibus para o Vale do Paraíba. “Esta é a última chance que eu tenho”, afirma João, que agora acredita em Deus.

    "Eu nunca fui religioso. Hoje, Deus é tudo para mim. Eu recebi uma carta da minha mãe e ela quer voltar a falar comigo agora. Só Deus mesmo”, conta. Abandonado pelo pai, que era alcoólatra, o adolescente conta qual seu maior sonho. “Outro dia eu sonhei que ele tinha vindo aqui e eu mostrava a fazenda para ele”. Faz cinco anos que eles não se encontram.

    De pai a viciado

    Entre os jovens há pessoas de várias idades e níveis sociais. Odair Souza, aos 29 anos, conta que perdeu tudo para as drogas. “Eu nunca tive dificuldade de conquistar as coisas. Tinha dinheiro, um restaurante, mulher, filhos e os perdi para as drogas”, lamenta.

    Na fazenda há sete meses, Odair explica que não sabe o que o levou às drogas. “Não tem explicação. Eu tinha tudo. Eu conheci a droga no Exército”, revela o comerciante. Ele chegou em um ponto que temia morrer. 

    Odair conta que o trabalho na fazenda o ajudou muito. “Eu não sabia se ia dar certo, mas aos poucos fui absorvendo o que era me passado”, diz. “A fazenda me ensinou que a minha espiritualidade acontece nos relacionamentos com os outros”.

    Com a visita, os internos da fazenda esperam que a imagem do dependente químico na sociedade mude. “Somos vistos como marginais. E não é assim. Tem um coração aqui. Quando falam que você está numa clínica o olhar muda. Só sabe quem passa por essa doença. É uma doença”, diz João Paulo. 

    A Fazenda

    Fundada há 24 anos pelo frei alemão Hans Stapel, o projeto da Fazenda da Esperança conta hoje com 42 unidades pelo mundo, 18 delas no Brasil.

    Klaus conta que tudo começou com um grupo de jovens de uma paróquia de Guaratinguetá. Um deles queria viver a “palavra do Evangelho” e passou a conviver com um grupo de viciados. Com o tempo, os vínculos de amizade entre eles se fortaleceram, até que um dia um deles largou as drogas. “ O viciado pensa muito no eu. Na experiência religiosa ele vive o outro. E isso é fundamental", explica Rautenberg.

    O projeto é baseado na vivência comunitária. Todos os jovens trabalham para promover o sustento da fazenda. Em Guará, plantam lavouras de subsistência e criam animais. O cotidiano é composto basicamente pelo trabalho e pela oração.

    Os meninos são separados das meninas. “Muitas vezes são pessoas com uma sexualidade muito machucada, às vezes se prostituem, então, achamos melhor separá-los”, diz o teólogo.

    As obras na Fazenda da Esperança para receber o papa começaram em outubro. Foi construído um palco para receber os 2 mil jovens das 42 fazendas e uma igreja. O contato com a natureza, segundo os internos, ajuda na recuperação. “Passa bastante tranqüilidade”, afirma João Pedro.

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