Panamá recorda os 20 anos da invasão dos EUA para capturar Noriega

Vinte anos depois que os Estados Unidos invadiram o Panamá para capturar o ditador Manuel Antonio Noriega, muitos panamenhos acham que a verdadeira causa da intervenção militar foi o fato do alvo americano ter se convertido num estorvo para os planos políticos de Washington.

AFP |

Os Estados Unidos sempre afirmaram que a invasão iniciada na madrugada de 20 de dezembro de 1989, sob o governo de George Bush pai, buscava capturar o general Noriega para levá-lo ante a justiça por sua cumplicidade no tráfico internacional de drogas.

A operação 'Causa Justa' deixou oficialmente 500 mortos. No entanto, entidades sociais panamenhas asseguram que foram mais de 4.000, e vários analistas suspeitam que as verdadeiras motivações dos Estados Unidos eram diferentes das proclamadas.

"Nunca acreditei que a invasão se devesse a vínculos do general com o narcotráfico. Era um segredo declarado que ele estava trabalhando para a segurança americana", afirma o analista político Mario Rognoni, que foi ministro na época de Noriega.

Já o constitucionalista Miguel Angel Bernal, ferrenho opositor de Noriega, diz que o general se tornou um estorvo para os planos políticos dos Estados Unidos na América Latina e Caribe.

O governo americano estaria preocupado na época com os grupos guerrilheiros de esquerda que combatiam na América Central e com o regime revolucionário sandinista na Nicarágua.

"Os Estados Unidos queriam usar o Panamá como plataforma para essa luta contra os sandinistas, e como Noriega se negou a ajudar, aí escreveu sua sentença de queda ", explicou Julio Berríos, ex-assessor do governo panamenho que se instalou depois da invasão e atual advogado do ex-ditador.

Há quem atribua a invasão a um plano de Bush de conseguir a popularidade de seu antecessor Ronald Reagan, de quem foi vice.

"Os Estados Unidos podiam ter eliminado ou sequestrado Noriega, mas a invasão permitiu que Bush ficasse as 24 horas do dia na televisão mostrando que ele era um homem forte, capaz de tomar decisões ", analisou o acadêmico Marco Gandásegui.

Depois da invasão, Noriega se refugiou na Nunciatura Apostólica, mas se entregou às forças americanas, que o levaram para Miami, onde foi julgado e condenado a 17 anos de prisão por tráfico de drogas.

Depois de cumprir sua sentença em 2007, Noriega está esperando em silêncio que os tribunais americanos decidam se pode voltar ao Panamá ou deve ser extraditado para a França, onde enfrenta um julgamento por lavagem de dinheiro.

Por outro lado, as famílias das vítimas da invasão americana continuam reclamando justiça e criticam os presidente panamenhos que governaram desde então por não exigir que Washington assuma sua responsabilidade e paga indenizações.

"O presidente Barack Obama é um Bush negro. Não há qualquer diferença entre os dois. Não se pode esperar nada dele ", declarou Rolando Sterling, membro dos 'Batalhões da Dignidade', que enfrentaram as tropas americanas em 1989.

Os governos panamenhos que se sucederam depois da invasão não exigiram que os Estados Unidos reconheçam sua responsabilidade, afirma Bernal.

"Os presidentes panamenhos preferem ficar de bem com o governo americano e não com a história", acrescenta.

As famílias das vítimas não querem apenas indenizações, como também pedem que o Panamá decrete 20 de dezembro como dia de luto nacional, algo que não conseguiram porque muitos panamenhos consideram que a invasão foi um mal necessário para acabar com o regime militar instaurado em 1968.

jjr/cn

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG