Palestinos se despedem em Ramala do poeta Mahmoud Darwish

Antonio Pita Ramala, 13 ago (EFE) - Milhares de palestinos deram hoje na cidade de Ramala, Cisjordânia, o último adeus ao poeta nacional Mahmoud Darwish, no maior funeral registrado desde o de Yasser Arafat, em 2004.

EFE |

Os restos de Darwish, que morreu no sábado em uma clínica de Houston (Estados Unidos) após uma operação a coração aberto, chegaram esta manhã à capital da Jordânia, Amã, para depois serem levados de helicóptero à Muqata, a sede presidencial da Autoridade Nacional Palestina (ANP), em Ramala.

No local, onde também foi erguido o mausoléu de Arafat, o caixão de Darwish foi alvo de uma recepção oficial geralmente reservada a chefes de Estado, na qual o presidente da ANP, Mahmoud Abbas, o qualificou de "mestre da palavra e da sabedoria".

Parentes do autor, líderes religiosos e políticos e intelectuais, entre eles o ex-chefe do Governo francês Dominique de Villepin, assistiram ao ato.

Posteriormente, milhares de pessoas formaram o cortejo fúnebre pelas ruas de Ramala, decoradas com bandeiras palestinas e cartazes com versos e imagens do poeta palestino mais traduzido e premiado em vida.

Após passar pela praça central da cidade, Al-Manara, o caixão chegou ao Palácio Cultural, junto ao qual foi sepultado com 21 tiros para o alto.

O Palácio Cultural, o maior centro de espetáculos de Gaza e da Cisjordânia e onde ele recitou sua obra, em julho, se chama a partir de agora Palácio Cultural Darwish.

As forças de segurança tiveram que conter a multidão que se amontoava para ver o ataúde, coberto com a bandeira palestina.

O corpo de Darwish repousa em uma cova cercada de gramado, palmeiras e pequenas oliveiras que, em seguida, ficou coberta por coroas de flores.

O enterro, no qual quase não se viram bandeiras de partidos, foi um reflexo da necessidade do povo palestino de se agarrar a um símbolo respeitado por todos em momentos de ódio entre facções.

Por isso, tanto Hamas quanto Fatah e os demais movimentos palestinos mostraram pesar pelo falecimento daquele que o primeiro-ministro da ANP, Salam Fayyad, definiu como "poeta da terra e da vida, símbolo da identidade nacional palestina e da cultura humana".

Fayyad lutava esta tarde para conter as lágrimas, sentado nas escadas do Palácio Cultural, enquanto esperava o ataúde cercado de curiosos.

Outros choravam abertamente ou rezavam em meio ao tumulto para ver ou tirar uma foto no local onde seria enterrado o escritor.

Esta unanimidade entre os palestinos em torno da figura de Darwish se deve a que foi muito mais que um simples escritor político, mas "um poeta", o que melhor conseguiu transformar em palavras a saudade da terra e do orgulho perdidos perante a ocupação israelense.

Sua obra e compromisso político estiveram marcados por seu exílio forçado dos territórios palestinos com apenas sete anos de idade.

Darwish nasceu em 1941 em Al-Birwa, um povoado da Galiléia do qual sua família teve que se retirar após a criação do Estado de Israel.

"Venho de lá e tenho lembranças / Nascidos como mortais somos, tenho uma mãe / e uma casa com muitas janelas / tenho irmãos, amigos / e a cela de uma prisão com uma fria janela", começa um de seus textos mais famosos.

Da mesma forma que este, poemas como "Documento de identidade" ou "Estado de sítio" são hoje um tipo de hinos literários palestinos conhecidos e apreciados no mundo árabe.

"Foi o poeta do exílio e dos refugiados, cuja linguagem universal de deslocamento e alienação será ouvida no discurso - político e poético - durante muitos anos", ressaltou em comunicado a diretora da agência da ONU de ajuda aos refugiados palestinos (UNRWA), Karen Abuzayd.

Em 1988, Darwish redigiu a chamada Declaração de Independência Palestina, o que lhe valeu, junto com sua obra em defesa da liberdade e de sua terra, o codinome de "poeta da resistência".

Ele publicou mais de 20 livros de poesia e cinco de prosa, mas - como diria Gabriel Celaya - também tomou "partido até se manchar" e foi várias vezes preso em Israel por sua atividade política.

Fez parte do comitê executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) até que renunciou ao cargo em protesto pela assinatura dos Acordos de Oslo, em 1993.

Hoje, partidários e detratores deste acordo se despediam juntos de Mahmoud Darwish. EFE ap/db

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