Pai de Sandra Gomide diz não ter esperança de ver assassino preso

Em entrevista ao iG, João Gomide relacionou impunidade de Pimenta Neves a casos recentes de violência contra a mulher

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Em entrevista ao iG o pai de Sandra Gomide, João Gomide, relacionou a impunidade de Antonio Marcos Pimenta Neves a casos recentes de violência contra a mulher como os assassinatos de Elisa Samudio, ex-amante do goleiro Bruno do Flamengo, e Mércia Nakashima . Para Gomide, o fato de um crime como o de Pimenta, que teve enorme repercussão, ficar impune por tantos anos estimula casos semelhantes.

Gomide recebeu o iG na casa modesta onde vive com a mulher na zona oeste de São Paulo. Desde a morte da filha ele passou por cirurgias para implante de três pontes de safena e enfrenta um câncer no intestino. Para se locomover pela casa, Gomide usa um andador. A mãe de Sandra, que sofre de distúrbio bipolar e teve um edema pulmonar, chegou a ficar oito meses internada depois do assassinato das filha. Hoje ela vive na cama. O sítio que o pai de Sandra tinha em Ibiúna e a loja de ferragens em São Paulo foram vendidos para custear despesas médicas.

Aos 72 anos, Gomide disse não ter mais esperança de ver o assassino confesso de sua filha na cadeia e demonstrou total descrença em relação ao sistema jurídico brasileiro.

iG - Passados quase 10 anos da morte de Sandra o que o senhor pensa sobre o caso?
João Gomide - O que não funciona neste País é a Justiça. Dizem que as leis brasileiras são uma porcaria da década de 40. Então para que existe juiz, desembargador, ministro? Não precisava pagar estes caras se a lei é tão ruim. Nos EUA, por exemplo, a lei é para todos. Aqui um toma cadeia e outro não. No Brasil não funciona a Justiça. O Pimenta foi condenado e fugiu para a casa de uns parentes no interior. Na mesma noite o Supremo Tribunal Federal deu um habeas corpus para ele.

iG - Agora o caso está outra vez no STF e pode ter uma decisão final a qualquer momento. O senhor espera que desta vez o Pimenta vá para a cadeia?
Gomide - Com a Justiça que a gente tem eu não tenho esperança. Você acha que depois de 10 anos alguém vai preso? Eu não tenho esperança. De que adiantou os jurados irem lá e condenarem ele. Brincaram com os jurados. Eles nem precisavam ter ido lá.

iG - Qual a consequência disso para o País?
Gomide - A impunidade do Pimenta vai fazer correr muito sangue no País. E já começou, né?

iG - Por que?
Gomide - Estimula demais. É o que mais estimulou. Agora a gente vê todo dia um caso destes. Hoje tem o caso do Bruno e o da Mércia. Amanhã aparece outro e depois mais outro. Estimulou demais. O Pimenta é poderoso, sabe muita coisa sobre muita gente.

iG - E quanto à ação cível que o senhor move contra o Pimenta pedindo indenização?
Gomide - Já são 10 anos sem punição nem indenização. Espero que agora os juizes se sensibilizem porque eu estou no final. O câncer é o final da vida, embora os médicos digam que eu vou morrer é do coração. Tenho três pontes de safena e três veias entupidas. Minha mulher ficou oito meses em clínica de apoio.

iG - O que pode ser feito para mudar a situação?
Gomide - O governo precisa tomar uma iniciativa e mudar a lei. Se o Lula sancionou uma lei que proíbe dar palmada no filho porque não faz um decreto que impeça a impunidade de criminosos como o Pimenta?

iG - O senhor tem notícias sobre o Pimenta?
Gomide - O que dizem é que ele não faz mais nada. Está com uma depressão tão forte que é um coitado que vai da cozinha para a sala, da cozinha para a sala. Eu não acredito nisso. Ele é um homem muito maldoso. É muita maldade fazer o que ele fez. Minha filha não estava pedindo nada para ele. Ela tinha largado dele. O Pimenta foi na casa que eu tinha lá em Ibiúna e almoçou comigo na véspera de matar a minha filha. Às vezes eu me culpo. Se tivesse ficado com ela isso não teria acontecido. Porque todo mundo que estava lá no haras viu o que aconteceu e não fez nada. Como é que pode? Podiam ter jogado uma pedra nele ou tentado segurar. Todo mundo viu que ele estava armado.

iG - O que o senhor tem feito para sobreviver?
Gomide - Tive que vender o sítio em Ibiúna e a loja que eu tinha em São Paulo. Agora vou ser obrigado a alugar esta casa e mudar para o interior.

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