Velório de casal extrativista é marcado por medo e revolta

Movimentos sociais fazem protesto contra execução. Cidadãos de Marabá que foram ao velório temem mais mortes

Wilson Lima, enviado a Marabá |

Divulgação
José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, mortos na terça-feira
Um misto de revolta e preocupação marca o velório em homenagem ao casal de extrativistas Maria do Espírito Santo da Silva e José Cláudio da Silva, assassinados a tiros de espingarda na manhã de terça-feira, em Nova Ipixuna, cidade a 390 quilômetros de Belém. O casal está sendo velado no Cemitério da Saudade, em Marabá, cidade a 440 quilômetros da capital paraense.

Durante todo o dia, representantes de movimentos sociais como o Movimento Sem Terra (MST), Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) - ONG fundada por Chico Mendes -, Fórum da Amazônia Oriental (Faor), que reúne ONGs e movimentos sociais com atuação no Maranhão, Pará, Amapá e Tocantins, prestaram suas últimas homenagens aos extrativistas e protestaram contra a sua morte. Pelo menos 100 membros dessas entidades estão em Marabá para o enterro do casal.

Os dois serão enterrados na manhã desta quinta-feira, por volta das 10h, no no Cemitério da Saudade. Entidades como o MST e CNS prometem realizar uma passeata pelas ruas de Marabá contra a violência no campo. Também está previsto um ato ecumênico em homenagem ao casal.

Entre os moradores de Marabá que foram ao velório predomina o medo: “Se eles fizeram isso com quem tinha espaço na mídia, imagina com quem não tem”, disse um homem, que preferiu não se identificar.

A Policia Civil do Pará está intensificando as investigações em Nova Ipixuna para chegar aos possíveis autores do crime. Já existe uma lista de suspeitos, ainda não divulgada pela polícia. A primeira linha de investigação aponta que o casal foi morto por madeireiros que atuam na região. Além de serem assassinados, eles também tiveram suas orelhas cortadas.

Reprodução Google Maps
Marabá fica a 440 quilômetros de Belém, capital do Pará
As ameaças

Em novembro do ano passado, durante evento que discutiu a preservação da floresta amazônica, José Cláudio da Silva classificou como “assassinato” a derrubada de árvores da região e disse que “vivia com a bala na cabeça” por causa das constantes denúncias contra madeireiros. “Vivo da floresta, protejo ela de todo jeito. Por isso, eu vivo com a bala na cabeça a qualquer hora, porque eu vou pra cima, eu denuncio os madeireiros, eu denuncio os carvoeiros e por isso eles acham que eu não posso existir”, disse.

Ele ainda declarou. “A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes querem fazer comigo. A mesma coisa que fizeram com a Irmã Dorothy querem fazer comigo. Eu estou aqui conversando com vocês, daqui um mês vocês podem saber a notícia que eu desapareci. Me perguntam: tenho medo? Tenho, sou ser humano, mas o meu medo não me cala. Enquanto eu tiver força pra andar eu estarei denunciando aquele que prejudica a floresta”, afirmou.

O casal vivia há 24 anos em Nova Ipixuna. Eles moravam em uma área de aproximadamente 20 hectares, com 80% de área verde preservada, e viviam da extração de óleos de andiroba e castanha.

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