Mulher vence preconceito e consegue virar taxista no interior da Amazônia

Quando o marido morreu, a prefeitura tentou tomar a placa da família. Ela venceu a batalha e se tornou a única mulher taxista de Marabá

Wilson Lima, enviado a Marabá |

Marabá, no interior da Amazônia, é uma cidade distante aproximadamente 440 quilômetros de Belém, tem hoje cerca de 200 mil habitantes e 179 táxis. Pelo menos 400 pessoas vivem da praça em um negocio quase exclusivamente masculino. Quase. Isso porque, entre 400 profissionais, existe apenas uma mulher - que, como tantas outras pioneiras, ajuda a quebrar aos poucos as barreiras do preconceito.

Tatiana de Araújo Lima, 27, é a primeira mulher taxista de Marabá. Morena e esbelta, entrou no ramo para não entrar na galeria das mulheres vítimas do preconceito. Ela herdou a placa do marido também taxista, Valteir Silva, há aproximadamente três anos, quando ele morreu em um acidente de carro. “Na época, foi muito traumático”, revela.

Wilson Lima/iG
Tatiana de Araújo Lima, 27, é a primeira - e até agora única - mulher a dirigir um táxi em Marabá
Tudo começou como uma forma de fazer justiça. Após a morte de Valteir, a prefeitura de Marabá queria que a família devolvesse a placa de táxi - afinal, o homem da casa tinha morrido. Tatiana não deixou. Ela ingressou com uma série de recursos contra a prefeitura de Marabá para manter a placa. Ganhou, começou a trabalhar e escreveu seu nome na galeria das mulheres pioneiras em áreas predominantemente masculinas.

Na época, ela era estudante e buscava uma vaga no curso de administração da Universidade Federal do Pará (UFPA). Ao recuperar a placa do marido morot, ela deixou o sonho de ser administradora. Ela tem ensino médio e não pensa, a curto prazo, fazer curso superior. “Teria que me dedicar muito e largar o que faço. Gosto da praça e ganho bem”, afirma. Segundo ela, por mês, a praça em Marabá dá algo em torno de R$ 5 mil.

Na praça, Tatiana é uma espécie de xodó de outros taxistas. O pioneirismo e o fato de ser a única mulher a sobreviver da praça em um município de médio porte trouxeram algumas situações inusitadas. Alguns clientes pedem telefone de contato e tentam paquerar a taxista durante o horário de trabalho. Ela, afirma, sempre conseguiu uma saída para as cantadas fora de hora. “É típico do homem. Mas consigo diferenciar as coisas. Trabalho é trabalho”, aponta.

Gosto da praça e ganho bem”, afirma a taxista

No trânsito, muitos ainda se surpreendem com o fato de existir uma mulher taxista em Marabá. Ela declara que ainda precisa conviver com piadinhas do tipo “volta para o fogão” ou “mulher no volante, perigo constante”. Mas, hoje, já consegue superar isso e afirma que dirige melhor que muito homem mais experiente. De crachá e uniforme, faz questão de pilotar seu táxi de saia, maquiagem e cabelo arrumado. “Não deixou a vaidade por nada”, complementa.

Além disso, ela afirma que pelo fato de ser mulher, muitos clientes não deixam que ela carregue malas para o aeroporto ou para o hotel após uma corrida. “Mesmo trabalhando, alguns homens são cavalheiros comigo”, disse. Com três anos na praça, Tatiana Lima quer voltar a casar e ter filhos, algo que não conseguiu com o marido falecido. Mas ela avisa. “Não quero mais ser esposa de taxista. Já tive a minha cota de taxista na minha vida”, brinca.

    Leia tudo sobre: marabáparátaxistaTatiana de Araújo Lima

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG