Mazelas de “rica” Marabá e “gigante” Tapajós fomentam separatismo

Problemas sociais são evidentes nas duas regiões que querem ser independentes; unionistas alertam que “milagre” não é tão simples

Wilson Lima, enviado ao Pará |

Edvânia Pereira Mota, 25 anos e Valdeci da Silva, de 32 anos, são vizinhos e partilham de problemas parecidos. Ela é dona-de-casa, mãe de uma menina de 4 anos, cujo marido vive de sub-emprego; ele, estivador, também não tem emprego fixo. Os dois moram na periferia de Santarém, às margens do Rio Amazonas. Observam a riqueza do Estado passar praticamente no quintal de casa, mas não conseguem desfrutar de nada disso. Os dois são votos declarados pró-Tapajós e acham que com o novo Estado podem mudar de vida, deixar a pobreza, terem dignidade ao menos.

Pessoas como Edvânia e Valdeci são encontradas facilmente em outras regiões emancipacionistas e todas com o mesmo sentimento. Querem mudar para sair da pobreza. Em algumas regiões, da miséria mesmo. Na região da Marabá remanescente, casas de madeira construídas de forma precária reúnem famílias numerosas. Gente com cinco, seis, sete filhos. Gente que reside em áreas sem saneamento básico ou condições suficientes de sobrevivência. O autônomo Ricardo Martins, de 45 anos, pai de cinco filhos e que vende lanche na rua como forma de ganhar a vida. “Eu levo cerca de R$ 600 por mês. Não é muito mas dá viver. Mas, com o novo Estado (de Carajás), acho que tudo ia mudar e muito”, especula o vendedor.

“Com o Tapajós, acho que vou finalmente ter um emprego com carteira assinada”, disse Valceci Silva. “Eu voto Tapajós pensando no meu marido e na minha família. Não quero viver a minha vida inteira nestas condições. Em um casebre de madeira emprestado pelos meus parentes. Isso é muito triste”, afirmou Edvânia.

Durante toda a campanha separatista, esse foi o tom do discurso pró-Carajás e Tapajós. Mudar como forma de vivenciar um verdadeiro milagre econômico e sair da pobreza extrema em algumas regiões. Tanto que durante os programas, os separatistas abordaram problemas comuns a todo o Estado do Pará: falta de escolas, problemas com saneamento básico, falta de estrutura urbana e das estradas, entre outros, foram tomados como principal argumento a favor da criação dos novos Estados. Entre a população mais humilde de Marabá e em Santarém é forte esse sentimento de mudança. Até porque, eles meio que parafraseiam o deputado Tiririca (PR). “Pior que está, não fica”.

Na região, esses problemas estruturais são absolutamente comuns, principalmente na região de Tapajós. Se em Marabá, são poucas as ruas não asfaltadas, em Santarém são raras as vias com asfalto. Se em Marabá, não é construída uma escola de ensino médio há 12 anos; em Santarém, eles funcionam em prédios antigos e insalubres.

iG no Pará:

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O deputado João Salame (PPS), líder da Frente pró-Carajás, admite que não se pode pensar em uma mudança a curto prazo. Mas ele faz os cálculos e estima que a região tenha pelo menos R$ 2 bilhões para conseguir se sustentar no início das suas gestões. O dinheiro parte do cálculo dos separatistas de como ficaria o repartimento do Fundo de Participação dos Estados (FPE) com a criação de Tapajós e Carajás. “Esse dinheiro manteria a máquina pública e ainda sobraria muito para investimentos na região”, analisou Salame.

O professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e tesoureiro do Comitê Pró-Tapajós, professor Edvaldo Bernardo, afirma que não pode ser contado apenas o cálculo do FPE. Mas também a conversão direta de impostos como o ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) que passa a ser convertido diretamente para as regiões envolvidas. “No nosso caso, de R$ 800 milhões que nós contribuímos, apenas R$ 150 milhões vem pra cá. A criação do Tapajós inverte esse processo”, defende.

Na prática, os separatistas admitem que com a criação dos novos estados, a tendência é que ocorra uma nova redefinição dos recursos do FPE em todo o Brasil. Na prática, todos os 27 estados vão pagar a conta da criação de Tapajós e Carajás. “Todo mundo sabe disso. O problema é que essa discussão está sendo puxada por nós, tupiniquins, se fosse pelo sudeste, provavelmente a reação seria outra”, critica.

A frente unionista condena esses números e essa argumentação separatista. Para eles, não pode ser falar de um milagre econômico com a criação dos novos Estados. Em vários debates, o deputado Zenaldo Coutinho (PSDB), líder da Frente pró-Carajás, condena essa ideia. “Há que se considerar que haverá uma outra máquina administrativa a ser sustentada. Além disso, o FPE do Pará (quase R$ 3 bilhões) será repartido em três. Vai ser ruim para todo o mundo”, analisa.

Continue lendo sobre a divisão:

O debate:

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A campanha:

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