Grávida de gêmeos, mulher vai a hospital, não é atendida e crianças morrem

Diretora da Santa Casa de Misericórdia de Belém foi afastada. "Eu os amava como se eles já tivessem nascido", diz pai das crianças

Wilson Lima, iG Maranhão |

Dormi pouco. Acordei chorando ao sonhar com meus filhos”, diz pai das crianças mortas

A presidenta da Santa Casa de Misericórdia de Belém, Maria do Carmo Mendes Lobato, e a gerente de tocoginecologia do hospital, Florentina Balby, foram afastadas na noite de terça-feira (23) após se negarem a prestar atendimento a uma mulher grávida de gêmeos. As crianças morreram. O pai dos bebês, Raimundo Cícero, prometeu processar “todos os responsáveis” pela omissão de socorro.

O governador do Estado, Simão Jatene (PSDB), determinou a abertura de procedimento administrativo para apurar a responsabilidade dos gestores da Santa Casa no episódio. Uma comissão provisória, nomeada pelo secretário de Saúde do Pará, Hélio Franco, ficará a frente do hospital até o término das investigações.
Vanessa do Socorro Costa, de 27 anos, entrou em trabalho de parto e, por volta das 4h30, procurou a Santa Casa de Belém. Na porta, os vigilantes informaram que não havia vagas. Depois ela procurou o Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, mas também não foi atendida.

Desesperado, o auxiliar de cozinha, Raimundo Cícero, procurou ajuda do Corpo de Bombeiros. Em uma ambulância, um bebê nasceu morto. Em seguida, Vanessa retornou à Santa Casa, mas a segunda criança também já estava morta. A médica plantonista Cíntia Lins foi detida acusada de omissão de socorro. Na delegacia, ela afirmou que os bebês já estavam mortos antes do trabalho de parto.

A delegada responsável pela investigação do caso, Socorro Picanço, afirmou nesta quarta-feira que existem fortes indícios de que houve omissão de socorro no episódio. “A única coisa que pode descaracterizar o cometimento do crime é uma justa causa no sentido de que a médica não tinha uma outra alternativa que não aquela (de recusar o atendimento). Sequer houve o encaminhamento de um profissional da Santa Casa para averiguar o real estado da mulher”, disse em entrevista a uma emissora de TV local.

Após a luta de ontem para conseguir atendimento médico, Cícero pede justiça. Ao chegar em casa na noite de terça-feira (23), ele passou o restante do dia abraçado com o enxoval dos bebês e dormiu pensando neles. “Dormi pouco. Acordei chorando ao sonhar com meus filhos”, disse. Com menos de um salário mínimo, ele começou a comprar o enxoval das crianças quando a sua esposa estava no terceiro mês de gravidez. Os gêmeos seriam os primeiros filhos do casal. “Eu os amava como se eles já tivessem nascido”.

Cícero já tem um advogado que está cuidando do caso. Ele promete processar a direção da Santa Casa, o Estado e os médicos que não prestaram atendimento. A delegada Socorro Picanço confirmou que além da direção da Santa Casa e da médica Cíntia Lins, outras pessoas podem ser responsabilizadas pelo crime de omissão de socorro. A delegada tem 30 dias para concluir o inquérito, que são prorrogáveis por mais 30 dias.

    Leia tudo sobre: belémparásanta casagêmeos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG