Assentados vendem lotes para madeireiros em reserva extrativista

Com venda ilegal de lotes por assentados, projeto criado por casal executado em maio tem madeireiras funcionando dentro dele

Wilson Lima, iG Maranhão |

Reprodução Google Maps
Nova Ipixuna fica a 390 quilômetros de Belém, capital do Pará
Apesar da resistência do líder extrativista José Claudio Ribeiro da Silva , alguns beneficiados com lotes de terra do assentamento agroextrativista Praialta Piranheira vendiam suas terras de terra para madeireiros e fazendeiros na região. Muitos moradores são muito pobres e não conseguem renda suficiente para se manter com a extração de óleos e frutas da floresta. A negociação de lotes de assentamentos é ilegal.

Leia também: Em 4 anos, assentamento de extrativistas perde 12% de floresta

No início desta semana, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou um madeireiro que instalou a sua empresa dentro de um destes lotes do assentamento Praialta Piranheira. Ele comprou a área de um assentado há aproximadamente seis meses. No lote do assentamento, ele extraía madeira da mata e depois fraudava documentos atestando que o produto tinha origem legal.

A Madeireira Monte Pascoal foi multada em R$ 170 mil. Ela também foi embargada e teve um trator e 132 metros cúbicos de madeira apreendida.

Segundo informações do Ibama, do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), da Polícia Civil do Pará e das próprias entidades sindicais e ONGs, isso não foi um caso isolado. Há pelo menos cinco anos madeireiros vem tentando comprar terras do assentamento Praialta Piranheira em busca de castanheiras, árvore com alto valor de mercado.

Às vezes, o assentado é iludido por uma promessa fácil de dinheiro. O problema é que ele fica sem dinheiro depois e não pode mais voltar para a terra”

A coordenadora do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), em Belém, Cristina Silva, admitiu que existe essa prática, mas ela não é regra. “Às vezes, o assentado é iludido por uma promessa fácil de dinheiro. O problema é que ele fica sem dinheiro depois e não pode mais voltar para a terra”, disse a coordenadora.

Hoje, estima-se que pelo menos 500 famílias residam dentro do assentamento. Mas nem todas são de agricultores. As recentes operações do Ibama revelaram que existem casos em que os assentados são “laranjas” que permitem a exploração de madeira por empresas da região em troca de dinheiro. Cada metro cúbico de madeira era vendido por R$ 30 pelos assentados. Em outros casos, os assentados vendiam todo o lote de terra. Tudo ocorria sem documentação formal.

Divulgação/Ibama
Área recém-desmatada em Nova Ipixuna, onde casal de extrativistas foi executado
Informações de fontes ligadas ao assentamento  e que preferiram não se identificar apontam que, somente em 2011, pelo menos dois lotes de terras foram vendidos por assentados no início deste ano. As investigações da Polícia Civil apontam que um dos motivos para a execução do casal de líderes extrativistas José Cláudio e Maria do Espírito era justamente a não disposição de José Cláudio em permitir a venda ilegal destes lotes de terra a madeireiros e fazendeiros da região.

Quando o assentamento foi criado, apenas 200 famílias foram beneficiadas. Ele foi implementado com o objetivo de que as famílias beneficiadas tirassem seu sustento a partir da extração de óleos vegetais, do açaí e do cupuaçu, frutas típicas da região. Em 1997, o assentamento tinha 22 mil hectares. Hoje, com a interferência de fazendeiros, 12% da floresta já foi devastada em pouco mais de quatro anos, conforme dados do Ibama.

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