Ouvidos exigem cuidado redobrado no verão

Ouvidos exigem cuidado redobrado no verão Por Andressa Zanandrea São Paulo, 04 (AE) - Verão é tempo de cair na piscina e se esbaldar na praia. Pode ser bastante divertido ficar o dia inteiro dentro da água, mas é preciso ter cuidado com uma parte do corpo a qual nem sempre se dá a devida atenção: os ouvidos.

Agência Estado |

O calor e a umidade excessivos, típicos desta época do ano, favorecem o surgimento de inflamações e infecções na pele da primeira parte do ouvido, o canal externo. Também conhecida como ouvido de nadador, a otite externa é causada por bactérias e fungos, que penetram na pele por meio de lesões. Resultado: dor e desconforto.

"No verão, normalmente come-se mal, hidrata-se mal e dorme-se mal. Isso pode levar à queda na imunidade e ao aparecimento de infecções", afirma o otorrinolaringologista Marcelo Alfredo, do Hospital Beneficência Portuguesa de Santo André.

Durante os meses de janeiro e fevereiro, os casos de otites externas chegam a 40% dos atendimentos em consultórios otorrinolaringológicos, enquanto no resto no ano ficam em torno de 10%, segundo Alfredo. No inverno, são mais comuns as otites médias, que acomete a segunda parte do ouvido, após o tímpano.

"O grande fator que leva à otite externa é a manipulação do ouvido", diz o otorrinolaringologista Paulo Bedê Miranda, do Instituto de Otorrinolaringologia e Fonoaudiologia (Inof). Daí a importância de resistir ao uso do cotonete: o (mau) hábito de secar os ouvidos com hastes flexíveis de algodão, depois de entrar na água, tira a proteção natural. "A cera e a gordurinha que existe na entrada do canal do ouvido servem para proteger. Se são removidas, permite-se que a sujeira entre com mais facilidade."

A entrada de água ou substâncias irritativas - como o cloro da piscina, a água do mar, sabonete ou xampu - e lesões provocadas pela limpeza do ouvido com cotonete ou outros objetos facilitam a ocorrência da infecção. Como a caixinha fica aberta durante muito tempo no armário do banheiro, os cotonetes podem estar contaminados com fungos ou bactérias e levar esses microorganismos ao ouvido.

Na água quente, o risco da otite externa é ainda maior: nela, os microorganismos se proliferam mais facilmente. "A freqüência é incrivelmente alta nas piscinas naturais aquecidas. A água, embora natural e corrente, é quente e dissolve a cera, favorecendo a otite naqueles que já têm a pele previamente irritada por uso de cotonete, grampo ou tampa de caneta", alerta Miranda.

Uma saída para quem não consegue abandonar o cotonete é mudar para uma arma mais inofensiva: o secador de ouvido. "Em vez de usarem o cotonete para secar a água, pode-se usar o secador com o mesmo resultado, sem piorar ainda mais a qualidade da pele", explica Miranda. Projetado pelo otologista Hamilton P. Collins II, o DryEar age com fluxos de ar quente, com temperatura similar à corporal, que duram 80 segundos, tempo suficiente para secar o ouvido.

Normalmente, a otite externa não leva à perda definitiva de audição. Mas, além da dor forte, em algumas vezes há piora momentânea na escuta, pois o canal do ouvido incha e o som passa com mais dificuldade. Em alguns casos, também há secreção. A doença é diagnosticada no consultório, em um exame no qual o médico vê o ouvido, que também fica avermelhado.

O tratamento leva, em média, uma semana e é feito com antibiótico tópico e antiinflamatório. Em caso de a otite ser causada por fungos, são usados antifúngicos, e pode levar três semanas. "Felizmente os pacientes procuram o consultório com rapidez, pois incomoda muito. Isso evita a progressão da doença, que pode acometer o tímpano", explica o otorrinolaringologista Marcelo Alfredo. Além dos medicamentos, podem ser feitas compressas quentes para aliviar a dor.

A recomendação é evitar que entre água novamente no ouvido por até seis semanas. "A pele morre e descama. Se entrar em contato com a água, pode começar tudo de novo", afirma o otorrinolaringologista Arthur Menino Castilho, do Hospital Bandeirantes e do Hospital das Clínicas da Unicamp.

PROTEÇÃO EXTRA
O uso de protetores auriculares para evitar a entrada de água nos ouvidos é recomendado apenas para nadadores - que usem a piscina freqüentemente, como uma hora, três vezes por semana - ou para quem tem otites de repetição. "O protetor pode ferir a pele e causar mais dano que benefício", diz Castilho.

Após três otites, o professor de natação Eduardo Rocha, de 39 anos, aderiu aos tampões. "Para evitar problemas, comecei a usar protetor de silicone pré-moldado sob medida, por recomendação médica."
O campeão olímpico César Cielo, de 21 anos, dispensa o uso de protetores: usa só touca, que não veda a entrada de água. Mas nunca teve otite. "Nunca tive absolutamente nada, mas sei de muitos nadadores que têm dificuldades com inflamações e infecções. Costumo enxugar o ouvido ao fim de todas as sessões de treinos. Desde pequeno, me habituei a fazer isso sempre." A irmã dele, Fernanda, de 17 anos, também nada e nunca teve esse tipo de problema.

Para a mãe do atleta, a professora de educação física Flávia Cielo, o esporte não deve deixar de ser praticado por conta das otites. "Isso não deve ser visto como impedimento para que pais e mães não coloquem seus filhos na natação."

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