Otto é um retrato da MPB do seu tempo

Neste tempo em que vivemos, pós-desmonte das gravadoras, uma das virtudes cruciais de um artista da música é a independência. A capacidade de zanzar livremente pelo mundo e ser dono do próprio nariz abre possibilidades que um contrato de 1 milhão de reais não conseguiria abrir. Bem neste momento, algo fora de timing, o pernambucano Otto andou ensaiando um discurso ressentido contra gravadoras, empresários, meios de comunicação.

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

A estreia de seu show "Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos", sexta-feira, no Auditório Ibirapuera de São Paulo, deu a entender que os ressentimentos não têm lá muita razão de ser. Maduro, bonito e seguro, Otto tinha diante de si uma plateia cheia e previamente conquistada, que na terceira música estava plenamente enfeitiçada e se erguia para não mais voltar às poltronas até o final do show.

Coroam-se, aí, a libertação dos laços de dependência com a gravadora que o alçou ao prestígio (a Trama) e a boa recepção crítica ao quarto (e independente) disco. Otto é um artista ancorado no jornalismo escrito e no público sensível a esse arco de influência, e às vezes fica difícil entender do que é que ele anda se queixando. Talvez se queixe de si mesmo, no espelho.

Augusto Gomes
Otto e banda no show "Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos"

É sabido que Otto não é um cara sereno, manso ou tranquilo (essa é outra de suas virtudes), mas sua obra é tudo isso (mais uma qualidade), e assim foi também o show.  A música de Otto fala abundante e amorosamente sobre o mar, quase o tempo todo. É tão bom estar no mar, canta logo no início em "Dias de Janeiro", do disco "Condom Black" (2001). Na noite de um dia quente de março, Otto é um mar calmo e morno para o público de seu show.

Modernizador do Candomblé

Otto não é um roqueiro, e esse é outro de seus trunfos no xadrez da combalida MPB. Sua boa banda ergue uma mansidão sonora não-roqueira que vem de Cuba e do Caribe, de Belém e de Recife. Otto é centro-sul-americano, preto loiro, às vezes quase jazzista latino, blueseiro do Tietê, soulman do Leme de Copacabana. E faz trejeitos de Carmen Miranda ¿ disseram que voltou (latino) americanizado ¿, e isso quer dizer que Otto sofre. Sofre muito, e em público, e por isso convence uma pequena multidão enquanto se queixa. É um pacto.

O melhor de Otto é que ele é um modernizador do candomblé, principalmente em termos musicais. Só de candomblé ele fala mais que de mar ¿ sob as bênçãos de Iemanjá, Janaína, Xangô. Em "O Celular de Naná" (1998), inseriu "Emoriô" (1975), de Gilberto Gil e João Donato, santería cubana apimentada pelo acreano Donato. No final do show, misturou festas de umbanda de Martinho da Vila com o carimbó-candomblé do índio paraense Pinduca.

Embora seu primeiro disco se chamasse "Samba pra Burro" (1998) e fosse festejado nas páginas de jornal como renovação do samba, Otto não é do samba. Seu Brasil é Norte-Nordeste-floresta-Caribe, muito mais que Rio-Bahia. E, que eu me lembre, o holandês-africano Otto é o único cara que enfiou as (lindas) palavras estalactite e estalagmite na letra de uma música.

O menos legal em Otto é que ele ocupa muito tempo estilizando o candomblé, o samba e a MPB, polindo a música para agradar a si mesmo, no espelho. Eu tenho um problema, é a dúvida, disse ele a certa altura. Mas Otto é menos (auto-)condescendente, e mais luminoso, quando sai de si e entra em si mesmo e canta o pop Ronnie Von de "Pra Ser Só Minha Mulher" (lançada em 1977 por Roberto Carlos), os chiquérrimos Elizeth Cardoso (1972) e Nelson Gonçalves (1974) de "Naquela Mesa", os bregas (no bom, ótimo, excelente sentido) Otto, Julieta Venegas e Fernando Catatau de Saudade. Como um bom barco no mar/ eu vou, eu vou, canta essa incrível "Saudade". Eis o mar, calmo, maduro, bonito e inseguro.

Otto é um retrato da música brasileira de seu tempo, no positivo e no negativo. Como um Orlando Silva de um século em que o rádio não tem mais tanta importância, canta para as multidinhas, não para as multidões. Bambeia entre a dependência e a independência, entre o sucesso e a vontade de não tê-lo, entre o insucesso e o sucesso de fracassar naqueles moldes desmoronados. Não parece ter ainda acordado de seus sonhos intranquilos, e mais por isso ainda ele é a macumba, o brega, a folha de jornal e o mar.

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