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Os bichos carrancudos de Artur Pereira

Artur Pereira (1920-2003) nasceu em Cachoeira do Brumado, distrito do município histórico de Mariana (MG). Tornou-se artista plástico especializado em esculpir na madeira (em geral o cedro) bichos que existem e bichos inventados por ele. Fato raro, o escultor terá a partir da próxima terça-feira (dia 30) uma mostra totalmente dedicada a ele em cartaz no Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo.

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

O fato é raro porque, além de escultor, Artur era negro, estudou só até o segundo ano primário e ocupou ao longo da vida ofícios como os de lenhador, carvoeiro, pedreiro e carpinteiro. E caras assim não costumam ocupar espaços de exposição ditos nobres, como aponta o organizador de Artur Pereira ¿ Esculturas, o crítico de arte Rodrigo Naves: Artistas ditos populares costumam ser mostrados somente em exposições coletivas, como se fossem todos mais ou menos a mesma coisa. Nós tentamos respeitar sua individualidade, dar uma dignidade ao trabalho dele.

Rafael Motta

Peça em madeira que será exposta em "Artur Pereira - Esculturas"

A proposta é provocativa, segundo o crítico: A ideia foi pôr isso em curto-circuito, criar um problema, um complicador. É como colocar moda de viola num lugar de jazz. Agora é esperar para ver.  Rodrigo sabe que o senso comum admirador de artes plásticas costuma deitar um olhar algo depreciativo sobre o que se costuma chamar arte popular, ou primitiva. Essa rotulação acaba reduzindo esses caras a uma espécie de (faz uma pausa)... Cria uma adjetivação como se só valessem ali naquele cercadinho deles. Em geral, é mesmo gente do meio rural, iletrada, mas que tem muito a dizer sobre a arte moderna, contemporânea, defende.

Autor de um texto analítico no livro que acompanha a mostra (e custa R$ 65), o crítico é transparente ao reconhecer sua pouca familiaridade com esse universo. Estou começando também a ter um trato com isso, eu tenho muitas dúvidas, afirma. Na música popular, ninguém chama Chico Buarque, Cartola ou Nelson Cavaquinho de ingênuos, por que é assim nas artes plásticas?, pergunta, também a si próprio.

As respostas talvez se encontrem mais na sociedade que particularmente na arte. Ou não haveria um paralelo direto entre o desprezo pelo traço ao mesmo tempo simples e intricado de um artista como Artur Pereira e o modo como a sociedade em geral aborda fazendas, favelas, periferias, aldeias indígenas e a gente que habita nelas?

AP

O artista Artur Pereira

Os resenhistas do livro do IMS (além de Rodrigo, escrevem o curador da mostra, Ricardo Homen, e o artista plástico José Alberto Nemer, um dos descobridores de Artur) referem-se à obra do artista com termos como amistosa, serena, econômica, austera, singela. Outro termo poderia ser pacata, que é como a gente distante de Artur costuma ver a gente que ele representa. Mas há algum mistério a mais escondido no semblante de seus bichos ¿ e também no de homens eventuais, em geral representados como caçadores que apontam armas minúsculas para os animais aparentemente pacíficos. Suas expressões faciais variam entre o riste, o sério (bovino?), o bravo e o abertamente carrancudo. Parecem morar alguns demônios por dentro da placidez dos bois, gatos, cães, tatus, tucanos, papagaios, onças e quimeras do escultor mineiro.

O crítico Rodrigo Naves está ciente da distância que o separa do artista Artur Pereira, mas reconhece uma outra proximidade, que talvez possa unir supostas distâncias num mesmo nó: O que falta é a gente ver. É um pouco o mesmo que acontece com o modo como a arte brasileira é vista lá fora. Não quero boa vontade de ninguém, quem está perdendo são eles de não querer ver. É um pouco como se os brasileiros (não só os artistas) representassem para o mundo o mesmo que Artur Pereira e nossos artistas populares (primitivos?) representam para nós, brasileiros.

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