Os inimigos do coração feminino

Os inimigos do coração feminino São Paulo, 27 (AE) - Coração de mulher é sensível, sim. O número de mortes entre enfartadas supera em 50% o índice de mortalidade em homens nas mesmas condições, diz o médico Raul Dias dos Santos, professor de cardiologia da Universidade de São Paulo, diretor da Unidade Clínica de Lípides do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas e coautor do livro Coração de Mulher (Editora Abril).

Agência Estado |

Para Santos, há uma falta de percepção da mulher diante dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares - tais como enfarte e acidente vascular cerebral (AVC, ou derrame) - que representam a principal causa de morte no País. "O foco dela está nas doenças ginecológicas, nos tumores de mama e de útero. Ela sabe que deve passar pela mamografia e pelo Papanicolau, mas não cuida da saúde cardiovascular porque acha que isso é um problema de homem."

Rosângela Rosa, 44 anos, percebeu que a parte esquerda do peito escondia um lado nada romântico quando sofreu o primeiro enfarte, aos 39. "Foi um susto ! Sempre fiz Papanicolau e mamografia, mas não sabia sobre prevenção de problemas do coração", admite. Sete meses depois, aos 40, veio o segundo. "Nessa hora percebi que o coração não serve só para amar. Ele pode doer muito", completa. Apesar do susto, Rosângela fuma e está acima do peso.

O médico Otávio Gebara, doutor em cardiologia pelo Instituto do Coração, pós-graduado em cardiologia pela Harvard Medical School (EUA) e professor da USP, também assina "Coração de Mulher". Segundo ele, a desatenção feminina para com a saúde cardiovascular é uma questão histórica. "Os médicos, nos anos 60 e 70, só faziam estudos sobre o assunto em homens. Tradicionalmente, o médico da mulher ficou sendo o ginecologista. Hoje, porém, sabemos que a chance de morrer por enfarte ou por AVC é seis vezes maior do que a chance de morrer por câncer de mama."

A dona de casa Marcia Spercazechi, 51, só descobriu que verificar a dosagem do colesterol anualmente é uma recomendação da Sociedade Brasileira de Cardiologia para mulheres maiores de 30 anos quando enfartou, aos 47 anos. "Nunca tinha medido o colesterol antes", reconhece ela, que já passou por oito cateterismos. O pai de Maria faleceu em decorrência de problemas cardíacos e seu irmão implantou três pontes de safena, mas ela nunca enxergou o histórico familiar como ameaça. "Estou acima do peso, sou hipertensa, mas não passava pela cabeça que isso tinha a ver com o coração."

Maria também não vê ligação entre a menopausa, iniciada há três anos, e seus problemas cardiovasculares. Para Gebara, porém, essa relação é direta. "Os hormônios femininos protegem a saúde cardiovascular. Quando começam a diminuir, a partir dos 40 anos, a mulher fica mais exposta a problemas cardiovasculares. Isso ocorre porque o estrogênio age como vasodilatador e lubrifica as artérias. Na menopausa essa proteção se perde", revela o médico.

Segundo Gebara, o coração feminino é mais suscetível aos efeitos provocados pelos distúrbios metabólicos. "Se no homem diabético o risco de enfarte dobra, na mulher diabética esse risco aumenta de quatro a sete vezes", diz.

Presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), o médico Ari Timerman diz que a própria anatomia feminina favorece os problemas cardiovasculares. "Mulheres têm artérias mais sinuosas e finas. E o fato de ser mulher já significa ter mais tendência para diabete e para obesidade. Essa última, por sua vez, costuma levar à hipertensão e à elevação do colesterol, fatores de risco para o coração", detalha.

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