SÃO PAULO - Dionísio Damiani e Maria da Silva são os rostos que ilustram os extremos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) 2007 divulgada nesta quinta-feira pelo IBGE. Engenheiro agrônomo, 61 anos, ele mora em Juína, no noroeste do Mato Grosso e tem uma renda mensal de R$ 1.100 que somada a da mulher, professora aposentada, chega a quase R$ 2.000. Maria da Silva, 39 anos, analfabeta, três filhos menores, vive numa das cidades mais pobres do Maranhão, Centro do Guilherme.

Acordo Ortográfico  Ganha R$ 80 por mês e espera até hoje uma carta do marido que há seis meses embarcou para São Paulo com a promessa de buscar a família quando arranjasse um emprego de carteira assinada.

Ele vai voltar para nos levar, acredita a nordestina que engrossa a estatística dos brasileiros que ainda não se beneficiaram dos bons resultados da economia e ainda esperam uma chance para entrar nos programas assistenciais do governo federal. 

Ela tentou vender doces no município com a ajuda dos filhos menores, mas o negócio não prosperou porque Maria não sabia ler nem fazer contas. A situação de Dionísio é bem diferente. Com formação superior, o gaúcho de nascimento percebeu rápido que as melhores oportunidades não estavam dentro da sua profissão, mas no agronegócio.

Há 20 anos morando em Juína, onde chegou com uma safra de desbravadores para aproveitar o que seria uma das últimas fronteiras agrícolas do País, o engenheiro nem sabia que o agronegócio poderia levá-lo a condição de um dos expoentes da Pnad.

Com acesso à internet em casa, perfil no Orkut e três filhos já adultos, Dionísio consegue esse rendimento com a ajuda de um pequeno rebanho de gado leiteiro e uma plantação de legumes e verduras que ele comercializa com atacadistas da região. Dedico cada vez menos tempo à profissão de engenheiro agrônomo e recorro mais aos trabalhos ligados à agricultura, afirma Damiani.

Maria da Silva já não tem essa opção. Ela tenta apenas sobreviver. Não faz parte do programa Bolsa Família. Os seus com idades de 7,8 e 10 anos trazem ajuda para casa quando conseguem pedir algum dinheiro de pessoas da cidade. Centro do Guilherme tem apenas 7 mil habitantes.

Os dois únicos postos de saúde são municipais e não fazem internações de pacientes. Há 33 carros, 5 caminhões, 48 motos e 1 ônibus registrados na cidade, de acordo com o banco de dados do IBGE. O Produto Interno Bruto municipal é de R$ 21 milhões por ano, o que representa um PIB per capita de R$ 3.000 anuais ou R$ 250 mensais.

A renda de Maria da Silva está bem longe dessa realidade. A Juína de Damiani está em outro extremo. A renda per capita média por ano é de R$ 8.000 e o número de automóveis, por exemplo, é 60 vezes maior que a frota de Centro do Guilherme.

Mesmo diante dessa distância econômica e social, a situação de Juína não é tão confortável quanto parece. O professor de Geografia Humana e Econômica da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul Manoel Rebelo Junior explica que o valor da renda média do Centro-Oeste não deve aumentar muito nos próximos anos devido à dependência do dólar no agronegócio.

Embora a renda per capita seja grande, deve-se levar em conta a concentração de riqueza. Ele afirma que para se obter produtos de exportação competitivos, os produtores locais investem mais em tecnologia em detrimento de postos de trabalho.

Além do agronegócio, os dados da Pnad atribuem o aumento da renda média no Centro-Oeste ao salário do funcionalismo público e dos militares. A renda média aumentou de R$ 2.155 para R$ 2.318 entre 2006 e 2007. A média brasileira do dessas duas categorias passou de R$ 1.601 para R$ 1.638 durante o mesmo período. Segundo Manoel Rebelo, o peso do funcionalismo é explicado pelas atividades ligadas a essa área na capital federal

*Colaborou Socorro Macedo, do Recife

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