Ribeirinhos têm dificuldades para plantar, pescar, comprar alimentos e se deslocar. Esta é a maior seca no Estado em 108 anos

Poupar é a palavra de ordem atualmente para as famílias de ribeirinhos que vivem às margens dos rios do Amazonas. Com a seca recorde em mais de um século que atinge o Estado, a plantação queimou, os rios ficaram quilômetros mais distantes e, a pesca, maior fonte de alimento, muitas vezes impraticável. Poupa-se o peixe do almoço para que ele sobre para o jantar. A fome precisa ser dosada.

Casa de Kátia Soares da Cunha, moradora da Vila do Jacaré, onde água fica armazenada em um isopor e em garrafas
Lecticia Maggi, enviada a Manacapuru
Casa de Kátia Soares da Cunha, moradora da Vila do Jacaré, onde água fica armazenada em um isopor e em garrafas
“Tem que ir regrando, dividindo direitinho. Para as crianças, que não comem peixe cedo, é só um café antes de ir para a escola. Às vezes, nada”, relata Kátia Soares da Cunha, de 29 anos, moradora da comunidade Vila do Jacaré, às margens do Solimões, a 3 horas de barco da cidade de Manacapuru, na região metropolitana de Manaus (AM).

“Na falta do peixe a gente vai sobrevivendo de enlatado, conserva, salsicha”, conta Catarina da Silva Lira, de 28 anos, moradora da comunidade Cristo Salvador, onde hoje só se chega por estrada - quando o veículo para ainda é preciso andar 5 km em uma trilha na mata fechada. “E quando o dinheiro acaba, a gente que é grande aguenta a fome. Mas para as crianças tem que dar um jeito. Fazer um mingau, um chá.”

A vida dos ribeirinhos, embora acostumados a enfrentar a seca, tornou-se ainda mais difícil com a maior estiagem registrada no Rio Negro desde 1902, quando foi fundada a estação de monitoramento no porto de Manaus. Como o Estado é cortado pela linha do Equador, os amazonenses dividem o ano em duas estações: inverno, que corresponde ao período de chuvas, e atinge o auge entre os meses de dezembro e fevereiro, e verão, quando a seca predomina. A estiagem normalmente vai de julho a outubro.

Neste ano, o Rio Solimões registrou recorde de medição negativa em outubro e sua vazante interfere no nível do Negro. Trinta e nove cidades decretaram estado de emergência e uma, São Paulo de Olivença, a 985 km da capital amazonense, de calamidade pública.

De acordo com estimativas do governo do Amazonas, ao menos 61.588 famílias foram diretamente atingidas. Segundo a Defesa Civil, só em Manacapuru - um dos municípios atingidos e que entrou em estado de emergência - 145 comunidades foram afetadas, totalizando 12.695 pessoas. Angelos Figueira, prefeito de Manacapuru, afirmou ao iG que o “quadro é muito preocupante”.

“A produção do pescado é muito afetada e, direta ou indiretamente, todo o Amazonas é atingido. É um setor importantíssimo da economia”, diz ele, que além da alimentação, cita também os prejuízos aos serviços básicos de saúde e abastecimento. Na cidade visitada pela reportagem estão sendo entregues cerca de 4 mil cestas básicas, mas o prefeito admite que são necessárias pelo menos o dobro.

Escassez de trabalho

Com as lavouras secas, quase não há o que colher ou carpir.  E este é um dos poucos trabalhos disponíveis aos ribeirinhos na Vila do Jacaré. A diária vale R$ 20. Duas diárias na mesma semana é sinônimo de fartura, segundo a moradora Kátia da Cunha. “Tem semana que é uma ou nenhuma".

Kátia explica que o pouco que se pesca só é utilizado para o consumo próprio. Como o rio Solimões recuou um quilômetro da margem, a pesca só é realizada uma ou duas vezes por semana. Para que não estrague fora da geladeira - a energia está sendo racionada -, o peixe é salgado e posto ao sol. “A gente salga e bota para secar. Em três dias fica sequinho. Dura até uma semana. Para comer, fervemos na água, ele amolece e a gente desfia”, conta, enquanto a filha mais nova, Cristiane, de 9 anos, ergue um balde de peixes secos.

Bruna mostra o peixe depois que ele é salgado para ser conservado fora de geladeira
Lecticia Maggi, enviada a Manacapuru
Bruna mostra o peixe depois que ele é salgado para ser conservado fora de geladeira
Além de Cristiane, Kátia vive com as filhas Fabiane, de 14 anos, Bruna, de 11 anos, e o marido Josenias, em uma casa emprestada pela vizinha Maria Moura de Souza, de 72 anos, de quem cuida. A renda da família, diz ela, caiu pela metade com a seca e hoje as cinco bocas são alimentadas com cerca de R$ 300 mensais, sendo a maior parte do dinheiro vindo do Bolsa Família pago pelo governo federal.

Alimentos mais caros

Sem plantação e com pouca pesca, quase tudo o que é consumido pelos ribeirinhos precisa ser comprado no centro da comunidade Vila do Jacaré, onde para se chegar é preciso andar a pé por uma trilha por quase 50 minutos. Trajeto este que, com o rio cheio, é feito de canoa em pouco tempo.

Na Vila, contam os moradores, o preço dos produtos nas quatro pequenas vendas existentes é maior do que o encontrado no centro de Manacapuru. Além do valor gasto para se buscar os alimentos na cidade – R$ 5 a passagem de barco - agora, também é preciso repassar ao cliente os gastos com o percurso na trilha, segundo Marinei de Oliveira Medeiros, de 38 anos, dona do Mercadinho Aline.

Há cerca de um mês, Kátia tem percebido essa diferença. “Aqui na vila o quilo do feijão normalmente é R$ 4, agora está R$ 5. Em Manacupuru comprei um quilo de açúcar por R$ 1,85. Aqui, é R$ 2,50”, diz. “No meio do mês não temos mais nada, daí compro fiado salsicha, ovo. O mínimo que devo é R$ 30, até receber”, acrescenta.

Água coada

Com o baixo nível dos rios e a distância maior para se chegar neles, cada comunidade encontra sua forma para obter água. Kátia, da Vila do Jacaré, busca no Solimões o abastecimento. Águra para beber só tem disponível no centro, que fica a 50 minutos de caminhada.

Na casa de um cômodo da família de Kátia, em que metade é quarto e metade é cozinha, um grande isopor destampado guarda a água dos serviços domésticos. Em garrafas pet espalhadas pelo chão, a água para beber e cozinhar. O banho é tomado diretamente de canoa no rio.

Na comunidade Cristo Salvador parte dos moradores que não possui poço artesiano em casa busca água nos igarapés. "O rio é só terra. Tem que colocar a água num balde e esperar 3 ou 4 dias a sujeira assentar toda”, diz Ananias Meira Coelho, de 51 anos. Antes de beber, ele coloca gotas de hipoclorito de sódio na água.

Lucinete Freitas dos Santos, de 18 anos, vive em um flutuante - hoje na terra pela falta de água - no igarapé de São Francisco. “Deixo a água parada para depois coar e tomar.”

Muita caminhada

Sair da comunidade Cristo Salvador nas últimas semanas, segundo os moradores, somente em caso de extrema necessidade, como para comprar alimentos, ir ao médico ou ainda buscar o dinheiro do Bolsa Família, que quase todas as mães dali recebem. Com a seca no rio Solimões, a comunidade ficou isolada.

Catarina mostra a trilha aberta para que a comunidade Cristo Salvador tenha acesso a Manacapuru
Lecticia Maggi, enviada a Manacapuru
Catarina mostra a trilha aberta para que a comunidade Cristo Salvador tenha acesso a Manacapuru
As famílias abriram uma trilha no meio da mata fechada para ter acesso a uma estrada que leva a Manacapuru. “Foi um sacrifício grande. Teve dia que vieram mais de 30 pessoas aqui”, conta Sebastião Muniz da Silva, de 64 anos. Ninguém soube dizer ao certo quanto tempo demorou para abrir a trilha, mas estimam pelo menos uma semana.

Depois de passar pela trilha aberta em um barranco, ainda é preciso andar 5 km a pé até o ponto de ônibus mais próximo. O veículo segue pela rodovia estadual AM 352 por mais 20 km. Se não for assim, explica Sharling Coelho Meira, de 27 anos, “tem que caminhar 1 hora na lama até chegar ao rio”. Por conta da seca e da dificuldade de locomoção, as aulas estão suspensas há mais de um mês.

Sonhos

Kátia Soares da Cunha diz que sonha em um dia sair da cidade de Manacapuru (AM), ter uma casa própria e recuperar, dos sete filhos que teve, três que “doou” por não ter condições de criá-los. “Quero ter uma casa para colocar os filhos dentro e juntar tudinho. É o mais importante”.

Um deles, Carla, foi dada ainda bebê. Kátia acredita que ela esteja com 6 ou 7 anos. Outra, de 17 anos, mora com a avó, em Manaus. Outras duas crianças foram entregues a moradores da própria comunidade Vila do Jacaré. “Quando me veem pedem para vir para a casa”, diz, engolindo o choro, enquanto mostra fotos 3x4 de todos eles, sentada no chão da casa que não é sua.

Questionada sobre o que tem vontade de fazer e não pode, ela ri, tímida: “Tenho vontade de comer frango assado, adoro frango”.

Bruna, a filha de 11 anos, entrega à reportagem uma longa carta pedindo que seja entregue ao futuro presidente do Brasil. Nela, escreve a palavra ajuda 6 vezes. Em um trecho, pede comida e brinquedo. “Nos dá uma ajuda, uma casa. Eu e minhas irmãs precisamos de ajuda de alimentos e brinquedos.” 

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