Os custos desiguais para conter as emissões de carbono

Os custos desiguais para conter as emissões de carbono Por Fátima C. Cardoso* Enquanto o Congresso americano discute uma nova legislação para conter as emissões de carbono dos EUA, surgem os estudos que analisam os impactos das mudanças no setor privado do país.

Agência Estado |

Apesar da oposição de parte dos ambientalistas, o mais provável é que seja aprovada uma versão da legislação proposta pelos deputados democratas Henry Waxman, da Califórnia, e Edward Markey, de Massachusetts.

Eles propõem um sistema de "cap and trade", ou seja, um sistema de comércio de licenças de emissões. O governo estabelece um teto de poluição, que diminui anualmente e se não for cumprido pelas empresas, elas terão de comprar créditos no mercado. Esses créditos podem ser emitidos pelo próprio governo ou por projetos que comprovadamente reduziram as emissões na atmosfera. Diante das dificuldades para se aprovar um imposto direto sobre as emissões, essa opção tornou-se a mais viável para administração Obama e já tem o apoio de lideranças importantes como Al Gore.

Caso o cap and trade seja realmente aprovado nos EUA, quem perde e quem ganha com a nova política? É o que busca responder o estudo "Carbon Risks and Opportunities in the S&P 500" (algo como os riscos e as oportunidades em relação ao carbono para as empresas do índice S&P 500), divulgado na semana passada pelo instituto Investor Responsibility Research Center Institute e a consultoria Trucost.

A análise mostra que a maioria das empresas serão pouco afetadas, mas algumas delas incorrerão em altos custos. Foram avaliados os impactos de aplicar um preço sobre o total das emissões das empresas que compõe o S&P 500, comparando setores e companhias de acordo com o volume absoluto das suas emissões e sua intensidade em emissões de GEEs, assim como os custos potenciais do carbono em relação ao faturamento das empresas.

As 500 empresas do índice emitiram de forma direta 2,173 bilhões de toneladas de GEEs em 2007 em equivalentes de dióxido de carbono, mais do que toda a frota de carros, caminhões, ônibus e aviões nos Estados Unidos. Se forem contabilizadas as emissões indiretas, ou seja, dos fornecedores primários, as emissões pulam para 4,307 bilhões de toneladas de carbono. Considerando um preço de US$ 28,24/t de equivalente carbono, estimado pela Trucost para 2012 (hoje o preço na Europa varia entre 12 e 15 Euros), o custo para todas as 500 empresas seria de US$ 92,8 bilhões, apenas 1% do faturamento desse grupo de companhias.

O problema é distribuição setorial deste custo. O setor que enfrenta maior risco financeiro é o de empresas fornecedoras de energia (34 no índice), responsáveis por quase 60% de todas as emissões contabilizadas no S&P 500. O custo do carbono reduziria os lucros das mesmas em 45%. Outras 203 companhias perderiam menos de 1% dos seus lucros.

Os dados desse estudo explicam, em parte, o comportamento tão diferenciado do setor privado em relação ao combate as mudanças climáticas. Algumas empresas aparecem como fortes defensoras de medidas de contenção das emissões, e essas certamente têm menos a perder no cenário pós-Kyoto. As que estão na outra ponta não podem mais negar o risco das suas operações.

PARA FICAR DE OLHO
Novos fatos da campanha contra pecuária na Amazônia - A campanha do Greenpeace por uma moratória da pecuária na Amazônia, que foi fortalecida pelo relatório da semana passada, o "Slaughtering the Amazon" (algo como Abatendo a Amazônia), começa a dar os primeiros frutos. Como destacado na coluna da última semana, a ONG buscou responsabilizar toda a cadeia de valor da pecuária pelo desmatamento na região, citando nominalmente empresas varejistas como Tesco, Sainsbury's, Asda, Morrisons e Marks and Spencer, e indústrias de calçados como Nike, Adidas, Timberland e Clarks Shoes, que usariam couro do gado criado na região. Como fez na campanha da soja, o Greenpeace quer que as empresas exijam de seus fornecedores comprovantes de que não produziram carne ou sub-produtos em áreas de novos desmatamento. Dois fatos novos:
1) O BNDES, acusado no relatório de financiar direta ou indiretamente pecuaristas desmatadores, anunciou que poderá cancelar o crédito concedido a empresas pecuaristas, caso verifique que os recursos estão provocando desmatamento na Amazônia.

2) Empresas varejistas no Brasil, como Wal-Mart e Pão de Açúcar, divulgaram notas dizendo que fazem parte de pactos para combate ao desmatamento, em especial o Conexões Sustentáveis, parceria do Instituto Ethos, empresas e uma série de ONGs. Mas o grupo de acompanhamento do Conexões já está avaliando formas de fazer um controle mais preciso para saber se o produto nas prateleiras desses supermercados não vem de áreas desmatadas.

PARA SABER MAIS
Contra a pesca predatória - Para comemorar o "World Oceans Day", 8 de junho, a ONU e a FAO lançaram um manual com recomendações para o setor pesqueiro. A publicação traz orientações para reduzir o impacto da pesca nos espécies oceânicas mais frágeis. Veja em href="www.fao.org/fileadmin/user_upload/newsroom/docs/i0816t.pdf"target=_blank Clique aqui e acesse

* Fátima C. Cardoso é jornalista, com Pós-Graduação em Ciência Ambiental, e especialista em assuntos ligados à sustentabilidade e responsabilidade socioambiental.

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