Operadores de alcooldutos agora falam em conjugação de projetos

Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - Os operadores dos três bilionários projetos de construção de alcooldutos no Brasil já falam em aproveitar coincidências dos traçados previstos em suas obras, com o objetivo de economizar recursos financeiros e ampliar os ganhos e o volume a ser transportado, segundo representantes das companhias com atuação no país.

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Ainda transportando a maior parte do etanol por rodovias, os produtores brasileiros veem nos alcooldutos a melhor forma de aumentar suas margens de lucro. Além disso podem resolver gargalos logísticos que já têm limitado exportações do biocombustível, o que também gera incertezas sobre a capacidade de abastecimento do mercado internacional pelo país no futuro.

Os alcooldutos ainda seriam essenciais para trazer o produto a valores competitivos da nova região produtora, no Centro-Oeste brasileiro, para os principais centros consumidores do país, especialmente São Paulo, e para os portos exportadores do Sudeste.

Algumas estimativas apontam potencial de exportação do país, até 2025, de 25 bilhões de litros, quase a atual produção do centro-sul, contra pouco mais de 5 bilhões registradas em 2008.

"Existem facilidades e dificuldades em cada um dos projetos. Ninguém vai ficar rasgando dinheiro. Naturalmente, vejo as empresas concorrentes em uma conjugação, não em fusões", afirmou Alberto Guimarães, presidente da PMCC (sociedade da Petrobras, Mitsui e Camargo Corrêa), operadora do primeiro alcoolduto que deve entrar em operação no Brasil, a partir do final de 2010.

"Mas não existe uma corrida para terminar primeiro", acrescentou Guimarães a jornalistas, após sua palestra no Ethanol Summit, ao comentar a data de início da primeira fase do alcoolduto da PMCC, que deverá ligar Uberaba (MG), Paulínia (SP) e São Sebastião, no litoral paulista.

O custo total do projeto da PMCC, que prevê também outra saída de exportação, por Ilha d'Água, no Rio de Janeiro, além de ligação com a hidrovia Tietê-Paraná e interligação com Goiás, deve atingir 1,5 bilhão de dólares, com conclusão das obras de todas as fases em 2012.

Segundo ele, mesmo que os três projetos maturassem ao mesmo tempo, os alcooldutos seriam viáveis, apesar de a PMCC prever transportar, apenas em um primeiro momento, 12 bilhões de litros ao ano --a produção do centro-sul em 2009/10 deverá girar em torno de 26 bilhões de litros.

"Hoje seria possível, com rentabilidade, os três projetos decolarem. Seriam marginalmente atraentes, porém atraentes...," disse Guimarães.

Ele citou ainda que uma eventual conjugação de esforços seria um atrativo para o financiamento dos projetos, num ambiente de crédito mais escasso.

"Olhando a capacidade de investimentos, parece que algum espaço há para os projetos serem construtivos."

MAIS FLEXÍVEL

Sérgio Van Klareven, presidente da Uniduto, de propriedade de importantes usinas brasileiras, como Cosan, São Martinho, o grupo Crystalsev, entre outras, também admitiu a possibilidade de uma conjugação de operações, em uma sessão de perguntas e respostas no seminário.

"Não poderemos nos furtar a analisar toda e qualquer oportunidade. Percebe-se nos projetos que, em alguns pontos, eles seriam bastante parecidos", afirmou o presidente da Uniduto, que reúne 88 usinas ou um terço da produção de etanol do país.

A possibilidade de uma conjugação de esforços entre as companhias não deixa de ser curiosa, considerando que a Uniduto surgiu, entre outras coisas, para deixar as usinas menos dependentes da Petrobras, já que seria um grande player do setor no futuro com previsão de produzir 3,5 bilhões de litros de etanol até 2013.

"Não devemos fugir de oferecer ao mercado um serviço de menor custo, qualquer coisa nesse sentido, devemos analisar", ressaltou Klareven, cuja projeto prevê entrada em operação do alcoolduto no início da safra 2011/12 --ainda não está definida a capacidade do duto da Uniduto.

A Uniduto também prevê o seu duto passando por Paulínia, além de um ponto de interseção com a Hidrovia Tietê-Paraná, que também constam do plano da PMCC.

Rogério Manso, ex-diretor da Petrobras e atual diretor da Brenco, grupo produtor estreante no mercado que deve iniciar produção em duas unidades neste ano, e também tem planos de construir um alcoolduto, foi menos enfático ao falar sobre o assunto. Mas ele também admitiu uma eventual conjugação de operações.

"A grande questão é que tipo de projeto de convergência fazer que nos dê uma resposta (para o projeto ser atraente em termos de custos e confiabilidade)", afirmou Manso, lembrando que com o desenvolvimento dos projetos as empresas poderão ver melhor quais são as sinergias a serem aproveitadas eventualmente.

"Isso vai depender da tarifa e da data de entrada em operação... Todos aqui se conversam...", disse ele.

A Brenco, com proposta de exportar dois terços de sua produção, estimada para atingir 4 bilhões de litros em 2015, prevê um alcoolduto para transportar 8 bilhões de litros ao ano, contando com o produto fabricado por outras empresas. O empreendimento deverá cortar São Paulo a partir do Centro-Oeste em direção ao litoral.

(Edição de Denise Luna)

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