ONGs impedem Brasil de ter Guerra Civil, diz educadora

SÃO PAULO ¿ Em 1976, Dagmar Garroux, presidente e fundadora da ONG Casa do Zezinho, dava aulas de reforço para refugiados de guerra e alunos de escolas privadas de classe média. Mas não obedecia à estrutura formal de uma aula particular. Reunia os alunos em grupos para misturar diferentes realidades. Promovia inserções dos estudantes na periferia, com o objetivo de quebrar o que ela chama de ¿barreiras sociais¿.

Lívia Machado |

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Tia Dag, 54, como é conhecida, é formada em pedagogia. Nasceu e cresceu em São Paulo. Sou caipira de Santo Amaro, brinca. Em um dos espaços de recreação da Casa do Zezinho, há uma escultura, de aproximadamente um metro, do rosto da Tia Dag, feita pelos alunos. Eles me vêem multifacetada e... descabelada, diz ela, com um sorriso nos lábios. Os cabelos da Dag artística são formados por longos pedaços de tecido preto, cortados em tiras e colados no topo da réplica.

Há uma espécie de reverência à fundadora da ONG, o que ela aceita muito bem. Sempre fui muito a frente do mundo, afirma Dagmar. A Casa do Zezinho funciona no Capão Redondo, um dos bairros mais violentos da capital paulista. Convivem por lá pessoas de origens e, em alguns casos, destinos tão díspares quanto os refugiados de guerra e os alunos das escolas privadas de meados dos anos 70.

Gilson Matins, 33, coordenador da área de comunicação da ONG, tinha oito anos quando conheceu Dagmar. Para freqüentar as aulas de reforço escolar, foi obrigado a aprender a andar de ônibus ¿ por exigência da professora. Ricardo Souza Passos, 21, conhecido como Ricardinho cresceu na Casa do Zezinho. Foi aluno e, tempo depois, voluntario ¿ trabalhava como professor de informática da Casa. Na quinta-feira (04), foi contratado para estagiar em uma escola de línguas. A trajetória de Passos é semelhante à de Alberto Milfont Junir, jovem de 23 anos, morto dentro de uma loja das Casas Bahia, por conta de uma discussão com o vigilante da loja.

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Alberto Milfont

No bate-boca, segurando a nota fiscal, Alberto tentava explicar que não era bandido, estava apenas comprando um colchão. O segurança apontou o calibre 38 e Alberto duvidou que o profissional atirasse. Levou um tiro no rosto e morreu algumas horas depois no Hospital do Campo Limpo.

A Casa do Zezinho

Mais de 1.200 alunos - somados os períodos da manhã e tarde ¿ aprendem na pedagogia do arco-íris. Cada cor representa uma sala, um nível de aprendizado e determina a faixa-etária dos alunos. Pré-requisito para entrar na Casa é a baixa renda. Casos emergências também passam na frente na lista de espera. Se uma mãe me procura falando que o filho está sendo levado pelo tráfico, eu dou um jeito de abrir uma vaga, diz Dag.

Mais de 2.000 crianças aguardam para ter acesso às quadras poliesportivas, piscinas, oficinas de arte e cursos profissionalizantes. A cada ano, 100 vagas são abertas. O desejo da comunidade local é que nós funcionássemos 24 horas por dia, diz Dag.

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Foto de uma das quadras poliesportivas da Casa do Zezinho

A saída de um Zezinho, como são chamados os alunos, é apenas uma formalidade. Nenhum dos jovens que cresceu na entidade gosta de ser reconhecido como um ex-frequentador. De fato, a porta da grande casa amarela é convidativa. Está sempre aberta, sem controle ou restrições. Os ex-alunos passam sempre por aqui. Para conversar, nos visitar, ajudar. Nunca perdem o vínculo, diz. Alberto, por exemplo, foi educado na Casa e depois virou professor. Ele arrumou seu primeiro emprego em um caminho comum aos jovens da ONG.

Empresas chegam até a Casa do Zezinho para contratar os jovens que querem e precisam trabalhar. Alberto foi contratado por uma produtora de vídeos, e mais tarde, por uma empresa de engenharia. A morte de Alberto é tratada com indignação e tristeza. No começo da semana, o Tribunal de Justiça concedeu habeas-corpus ao vigilante, que está em liberdade.

A pedagoga afirma que todos os zezinhos aprendem desde cedo que, independente de ser pobre, negro e morador da periferia, todos eles têm direitos e devem reivindicar. A vida inteira Alberto foi visto como bandido, uma hora a indignação explode. Dentro de uma loja que ganha dinheiro por dar credito às classes mais baixas, é revoltante. Segundo ela, a função de Alberto dentro da ONG explica o grau de humilhação que ele deve ter sofrido. Ele entrava nas brigas entre os garotos para apartar e ensinar os jovens a conversar. Essa função é definida pela educadora como mediador de conflitos.

Apenas dois dos 10.000 zezinhos que a Casa já educou foram assassinados. Três foram presos. A instituição procura dar todo tipo de apoio e esses jovens têm suporte jurídico. Eles têm direito de defesa. Se eu não fizer, esquece. Morrem dentro da cadeia., explica.

Ela afirma, porém, que tal postura não significa passar a mão na cabeça de bandido. Não teria o menor cabimento. Meu pai morreu assassinado, diz ela. Há dez anos um adolescente tentou assaltar o sitio da família da educadora. O pai de Dagmar reagiu e foi morto com três tiros.

Tia Dag aponta que a Casa do Zezinho foi pensada para suprir a lacuna educacional deixada pelas escolas públicas brasileiras. Ela conta que a grande maioria das crianças entra na instituição sem conhecimentos mínimos de matemática básica e não sabem ler nem escrever.

O foco é suprir esse buraco, mas as criticas são mais ácidas. Escola pública no Brasil isola, é repressiva. Não têm psicólogos, terapeutas. Estão totalmente desinformadas de quem é o aluno. Escola tem que ser referência de alegria, assevera. Na Casa, eles têm aula de inglês, alemão, espanhol, gastronomia, oficina de teatro, música, dança, mosaico, cursos profissionalizantes. É bem servido, podem sonhar o que quiserem.

Para a educadora, a forma com que o professor lida com o aluno e com os pais das crianças é equivocada. Mandar bilhete informando os pais sobre atitudes inadequadas do aluno. Para quê? Não tem acompanhamento da vida desse jovem. Por que a criança apronta muito? Os professores já tentaram dialogar, entender, buscar no dia-a-dia desse aluno para compreender? Muitas vezes o pai é alcoólatra, a mãe trabalha o dia todo e não vai sentar e fazer lição com o filho, questiona.

Ela também aponta que nas periferias, para qualquer deslize, bater é a ferramenta de punição. Tem crianças que são espancadas. E o que a escola esquece é que esse aluno cresce. A referência mais marcante torna-se a violência. Ele vai agir como quando adulto? É preciso trabalhar alunos e pais dentro da escola, avalia.

Unir educação com lazer para além da sala de aula é o desejo da pedagoga. A região do Capão Redondo possui 1,5 milhão de habitantes com escassas opções de lazer. Essas pessoas só têm botecos e bailes onde a droga rola solta, afirma. Se não tivéssemos tantas ONGs no Brasil, o País já estaria em guerra civil.

Quando Alberto foi morto, alguns alunos queriam depredar as Casa Bahia. Tia Dag impediu. A espiral de violência foi contida. Disse a eles que se manifestassem na internet, procurassem político, tentassem mudar a situação, afirma ela.

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