BRASÍLIA - O oficial de inteligência Márcio Seltz disse nesta terça-feira que gravou áudios de interceptações telefônicas da Satiagraha no computador de seu superior, e então diretor-geral da Abin, Paulo Lacerda, por vontade própria. De acordo com ele, não é possível garantir que Lacerda teve acesso aos áudios, como deixou implícito em seu depoimento anterior à CPI dos Grampos, uma vez que o ex-diretor-geral não foi avisado sobre a existência dos arquivos.

No ano passado, quando esteve na CPI, Seltz disse que Lacerda teve acesso a dados sigilosos da Satiagraha por meio de um pendrive que ele mesmo teria entregue ao ex-diretor-geral. Nesta terça, em nova oitiva, o agente de inteligência disse que, na verdade, gravou dados do pendrive no computador de Lacerda.

Os arquivos diziam respeito a uma análise, um relatório produzido por Seltz a partir de matérias veiculadas na imprensa e interceptações telefônicas que, de acordo com ele próprio, não apresentavam nada de relevante.

Seltz disse que num belo dia foi chamado à sala de Lacerda e o então diretor-geral lhe pediu a cópia do documento de texto com o relatório de análise de mídia. O que foi uma surpresa, pois eu nem sabia que o Paulo Lacerda sabia que eu existia, afirmou.

Quando Lacerda fez o pedido, Seltz disse que, por acaso, estava com um pendrive no bolso, com seu trabalho e arquivos de áudio. Contornei a mesa, fui até o computador, conectei o pendrive e fiz a transferência do arquivo que eu estava escrevendo para o computador. Quando passei documento do word observei que nas pastas amarelas lá estava os arquivos de áudio. Eu resolvi passar também. Resolvi na hora passar. Naquele momento não falei que além do doc [documento de word] eu passava também o arquivo de áudio", disse.

Dias depois, Seltz diz ter se encontrado novamente com Lacerda e acredita que, como existiam comentários sobre a existência dos áudios, ele os teria visto mesmo sem o aviso de que foram gravados, pois estavam os ícones lado a lado.

Depois disso tive mais dois ou três encontros e tratamos do texto, não tratamos do áudio, pois eu entendi que estava tudo bem. Se ele não comentou pensei que estava tudo ok. Depois disso não me encontrei mais com ele, disse Seltz.

Devido à situação, Seltz admitiu que há possibilidade, mesmo que pequena, de Lacerda não ter ouvido nem tido conhecimento dos arquivos de áudio, conforme o ex-diretor-geral havia dito em depoimento à CPI.

Jornalistas

Seltz disse que os áudios que recebeu do delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, para analisar, não eram relevantes. Em alguns deles os alvos da operação eram grampeados em conversas com jornalistas.


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