Obra para pobre é vista como marqueteira, critica Lula

RIO DE JANEIRO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou, nesta quarta-feira, o que chamou de ¿desprezo pelas cidades e pela qualidade de vida da população¿ por governos anteriores. Em discurso no Hotel Sofitel, no Rio, durante a convenção Mobilidade Sustentável da Renovação Urbana, Lula comparou o volume de investimentos em saneamento e urbanização em áreas pobres em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso. ¿Em 2002, o Brasil gastou apenas R$ 62 milhões em saneamento. Ou seja, nada¿, atacou Lula, sem citar o nome do ex-presidente. ¿Hoje, só no Complexo do Alemão, no Rio, estão sendo investidos R$ 600 milhões¿. A convenção discute modelos de infraestrutura e transporte para melhorar a qualidade de vida e a mobilidade humana nas cidades.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |

Para Lula, o Brasil e a América Latina sofreram durante 20 anos, quando o único objetivo era fazer economia para gerar superávit primário. O presidente disse que a ideologia do Estado mínimo e a crença de que a iniciativa privada resolveria todos os problemas resultou em problemas graves de saneamento, esgoto e pobreza. Agora os governos terão de gastar muito mais, ressaltou.

Segundo o presidente, 75% dos pobres estão hoje nas grandes cidades. O Brasil começou o século 20 com nove entre 10 brasileiros vivendo no campo e terminou com oito entre 10 vivendo nas cidades, disse. Em 30 anos, tivemos uma taxa de urbanização que, nos Estados Unidos, levou oito décadas. 

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Lula na abertura da convenção Mobilidade Sustentável na Renovação Urbana, no Rio
Obra para pobre é vista como marqueteira

Um dos desafios para superar os problemas cidades é a imobilidade das ideias, na avaliação do presidente. Ele citou como exemplo as obras do PAC em favelas como a Rocinha, o Pavão-Pavãozinho e o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro ¿ vistas, segundo ele, como marketing. Quando a obra é feita para os ricos, todos aplaudem, porque querem viadutos para desafogar o trânsito. Quando é para pobre a obra é marqueteira, criticou. Temos de superar essa visão estreita se quisermos vencer a perversa segregação que existe nas cidades.

As obras nas favelas, segundo Lula, são vistas como gastos: Tudo para rico é desenvolvimento, tudo para pobre é gasto, comparou. Mas foram os pobres do Norte e do Norteste, segundo o presidente, que ajudaram o Brasil a enfrentar a crise econômica internacional.

Sublinhando o papel dos prefeitos, Lula voltou a dar uma estocada em governos anteriores. Antes do meu governo, presidente não recebia prefeitos, que eram todos considerados uns chatos que iam a Brasília pedir dinheiro, atacou. Agora todos os anos ouvimos a reivindicação da Marcha dos Prefeitos a Brasília e buscamos interação absoluta com eles.

Segundo Lula, gastos em saneamento foram historicamente mal vistos pelos administradores públicos. A obra não aparece, lembrou. Construir pontes e viadutos dá muito mais visibilidade. Pode pôr uma placa azul com o seu nome, o nome do pai, da mãe, dos parentes ou de alguma autoridade para puxar o saco  

Com Kofi Annan

Pouco antes da conferência, o presidente Lula se encontrou a portas fechadas com o ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan. Durante meia hora, Lula e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, conversaram com Annan sobre as propostas do Brasil para a Conferência de Mudanças Climáticas da ONU, em Copenhague. Também discutiram o combate à fome no mundo. Lula detalhou os projetos brasileiros contra a desigualdade social. Falaram ainda das relações políticas e econômicas entre a África e a América Latina.

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