Obra de Gregori Warchavchik, pioneiro da arquitetura moderna no Brasil, é lembrada em exposições

Oitenta anos depois de construído, um dos principais marcos da arquitetura brasileira estará novamente aberto à visitação pública. É a casa modernista da Rua Itápolis, construída no Pacaembu, em São Paulo. O local sedia, até 21 de abril, a exposição Modernista 80 Anos, com mobiliário e fotografias de autoria de Warchavchik. Nascido na Ucrânia em 1896 e naturalizado brasileiro em 1927, ele é o introdutor da arquitetura moderna no país.

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Augusto Gomes
Casa da rua Itápolis, de Gregori Warchavchik

Trata-se de uma das três construções de Warchavchik tombadas pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em São Paulo. As outras são a casa da Rua Santa Cruz (Vila Mariana), hoje sede do Parque Modernista, e a casa da Rua Bahia (também no Pacaembu), que atualmente é ocupada por uma empresa de design. Ele ainda projetou obras como o Museu Lasar Segall e conjuntos de casas na Vila Mariana e na Mooca, entre outras.

"Depois da construção da casa da rua Santa Cruz, em 1927, Warchavchik tornou-se um nome conhecido em São Paulo e recebeu convites para projetar diversas residências", conta Ilda Castello Branco, principal estudiosa da obra do arquiteto. Ela considera a casa da rua Itápolis "uma síntese das ideias de Warchavchik". "Ele a construiu exatamente como queria, porque era destinada a sua própria família. Não houve pressões do proprietário para atrapalhar".

Estão lá características como a economia e racionalidade das linhas, o uso de iluminação e ventilação naturais e a integração dos espaços. Qualidades essas que valeram elogios do arquiteto francês Le Corbusier, que destacou a beleza do muro curvo nos fundos das casa quando visitou as obras, em 1929.

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Detalhe da casa da rua Santa Cruz

"Para o meu avô, essa era a sua principal casa", concorda Carlos Eduardo Warchavchik, neto de Gregori. A exposição é uma oportunidade única para conhecer o lugar. Os planos dos Warchavchik, até hoje proprietários da residência, são colocar um familiar para morar lá após o final da mostra. Ele conta que a família morou no local durante alguns anos, na década de 30. Depois, ela foi alugada - a última moradora viveu lá de 1982 a 2007.

Warchavchik chegou ao Brasil em 1923, com emprego garantido na Companhia Construtora de Santos. "Ele vivia na Itália e pediu trabalho na Embaixada brasileira", diz Ilda. Chegando ao país, entrou em contato com figuras como o mecenas Paulo Prado, os escritores Mario de Andrade e Oswald de Andrade e a pintora Anita Malfatti. Todos eles, nomes importantes da Semana de Arte Moderna de 1922. A casa da rua Itápolis inclusive foi inaugurada com uma exposição de arte modernista.

Em 1927, mesmo ano em que se naturalizou brasileirou, casou-se com Mina Klabin, na milionária família de construtores. "Ele era um homem diurno, dormia às dez e às seis da manhã estava de pé. Já minha avó era uma pessoa mais ligada a festas, manter contatos, ia dormir às cinco da madrugada", lembra Carlos Eduardo. Apesar do perfil noturno, foi Mina Klabin a maior responsável pela organização e preservação da obra de Warchavchik. Ele morreu em 1972.

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Fotos de Warchavchik expostas na rua Itápolis

Um dos legados preservados é uma coleção de seis mil negativos, que incluem imagens de suas obras e também fotos feitas por ele. "São principalmente fotos de familiares e amigos", diz Ricardo Mendes, responsável pela curadoria fotográfica da exposição. "Mas é possível perceber que ele tem um projeto definido. São sempre fotos em close, com um resultado bem intimista".

A exposição na casa da rua Itápolis é uma rara oportunidade de ver uma amostra desse trabalho. "Ele só foi exposto uma vez, há cerca de dez anos, no centenário do nascimento do Warchavchik", explica Mendes. "Naquela época, as fotos estavam em péssimas condições. De lá para cá, a família digitalizou esse acervo. É uma obra que precisa ser conhecida", avalia o curador.

Junto com essa mostra, acontece no Museu Brasileiro de Escultura a exposição "Warchavchik: Panorama Modernista 1925-1932", com maquetes e fotos de diversas obras do arquiteto. Muitos de seus trabalhos não existem mais. Em São Paulo, casas nas ruas Melo Alves e Estados Unidos foram derrubadas. No Rio de Janeiro, um de seus principais trabalhos, a Casa Nordschild (na rua Tonelero, em Copacabana) também foi demolida.

Serviço

Exposição "Modernista 80 anos"
Casa Modernista
Rua Itápolis, 961, Pacaembu ¿ São Paulo (SP)
De 26/03 a 21/04
De quarta-feira a sexta-feira, das 13h às 18h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h
Entrada gratuita

Exposição "Warchavchik: Panorama Modernista 1925-1932"
Museu da Casa Brasileira
Avenida Faria Lima, 2075, Jardim Europa - São Paulo (SP)
De 23/03 a 18/04
De terça-feira a domingo, das 10h às 18h
Entrada gratuita

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