O tempo como amigo da vida

O tempo como amigo da vida Por Vera Fiori São Paulo, 19 (AE) - Verdade seja dita, os homens não demonstram grandes dramas em assumir o envelhecimento. Um bom exemplo é o filme Juventude, de Domingos de Oliveira, com o próprio, Aderbal Freire Filho e Paulo José, centrado no reencontro de três amigos que celebram mais de 50 anos de convivência.

Agência Estado |

Entre taças de vinho e copos de uísque, os senhores grisalhos riem das mazelas da meia-idade, algo impensável para muitas mulheres que teimam em trapacear o RG.

Esmiuçando os porquês de tanta relutância em se aceitar a maturidade, em 2007 a antropóloga Mirian Goldenberg , autora do livro "Coroas", deu início a um estudo, comparando as cariocas com as alemãs. Homens e mulheres do Rio de Janeiro responderam a 1.600 questionários, que abordavam várias questões, como os medos, exemplos de pessoas que souberam envelhecer, as maiores preocupações em relação à idade, etc . "Também ouvi mulheres em Salvador e na Argentina, que demonstram semelhanças com relação ao culto à aparência."

Os valores culturais saltam aos olhos. Entre as diferenças, está o próprio significado da velhice. Mirian bem que tentou formar um grupo de discussão com mulheres de 50, mas estas só topariam se o nome fosse "Coroas Gostosas" (e não simplesmente Coroas).

Na Alemanha, pessoas de 50, 60 e até de 70, com boa saúde e produtivas, não são consideradas velhas. As mulheres se sentem no auge da vida e saboreiam os ganhos. Se veem e são vistas como extremamente interessantes. No Brasil - e não é muito diferente na Argentina -, o capital é o corpo, a aparência, a juventude. Para as alemãs, capital é sinônimo de qualidade de vida, cultura, trabalho, viagens. Investem mais na casa do que na aparência. As alemãs não sentem medo da solidão. Aqui, tornar-se invisível para os homens é o fim.

As brasileiras falam em liberdade, e as alemãs, em emancipação. "Nos grupos de discussão com brasileiras, o que mais aparece como ganhos da idade é o fato de poderem ser elas mesmas depois de terem cumprido um ciclo como casar, ter filhos, encaminhá-los. Mas, alfinetaram as alemãs, será mesmo preciso esperar até os 50 para ser livre?"

As mesmas mulheres que romperam com as convenções, hoje, estão se debatendo contra o envelhecimento, mas a antropóloga não vê nisso um retrocesso. "A brasileira é livre, economicamente independente, tem muito mais escolhas. Até pode ser prisioneira do mito da juventude, mas há uma crítica nisso tudo, de que não é algo positivo. No fundo, a mulher quer reconhecimento nem que seja através da aparência. As alemãs são mais valorizadas e admiradas do que os homens, e isso as faz fortes e poderosas", conclui.

LUCIDEZ AFIADA
A escritora, jornalista e ilustradora Marina Colasanti, 71 anos - ou "pra lá de Marrakesh" , como brinca -, diz que se sente muito à vontade com sua idade. "Uma conhecida senhora carioca de 70 e muitos anos afirmou que se sentia com 40, jogando fora 20 anos de sua vida. Eu não quero descartar nem 15 minutos da minha vida", cutuca a autora de poemas, que falam tão bem de sexo, amor e casamento, como "Sexta-Feira à Noite", "Passando dos Cinquenta", "Entre um Jogo e Outro", só para citar alguns.

Mas envelhecer, adverte, não é para qualquer um. "O envelhecimento é pesado se a pessoa não estiver atenta para os lucros. Traz uma visão mais ampla do mundo. A pessoa acumula memória, uma grande companheira. A juventude chega pronta, enquanto o amadurecimento vai sendo construído. Claro que, sem saúde, tudo cai por terra."

Segundo ela, a negação da velhice também pode ser associada ao poder que foi tirado dos mais velhos. Antigamente os pajés eram os donos do conhecimento, e os idosos sabiam encomendar os mortos. A memória só podia ser armazenada na mente das pessoas e os mais velhos zelavam pelas lembranças do grupo social. Aos poucos, esse armazenamento foi sendo feito por livros e pela internet. Não pergunte ao seu avô, mas ao Google. O velho perdeu conhecimentos de base e foi despido de seu valor.

O feminismo sempre permeou sua obra e os artigos que escrevia para jornais e revistas durante o regime militar. Passados mais de 30 anos, observa que não se fala mais em questões de gênero. "Está havendo um desgaste da imagem feminina e de muitos estereótipos. Se não é a plástica, fala-se da dificuldade das relações. Nas peças teatrais, só se vê mulheres falando de sua solidão, de como os homens são difíceis, uma repetição tediosa de queixas."

Quanto à febre das intervenções estéticas, lembra que não apenas as mulheres, mas também os homens, entraram nessa corrida. "Falou-se tanto da ministra Dilma Roussef, mas ninguém comenta o botox de Lula em quantidade de entorpecer as cobras do Butantã." Diz que não teria coragem de se submeter a um lifting - "coisa que, no futuro, será vista como uma barbárie" - muito menos colocar "peito de borracha". É adepta da dieta mediterrânea, bebe vinho todos os dias, não fuma e faz exercícios com um terapeuta corporal, além, é claro, de produzir muito. Casada há 37 anos com o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, conta que, além da paixão comum pela literatura, ambos adoram viajar.

FEMINISMO NA MPB
O tênis All Star e a calça jeans, herança dos tempos da faculdade de Jornalismo e festivais de música, despistam a idade biológica da cantora, compositora e violonista Joyce, 61 anos, 40 de MPB. Seu suingue e frescor musical atraíram DJs londrinos e bandas pop, como Stereolab, Superchunk e Tortoise. O segredo? "Não se faz mais velhos como antigamente", provoca Joyce, que, ainda adolescente, causava polêmica com suas músicas.

Feminista por acaso, aos 19 anos causou frisson no II Festival Internacional da Canção, com a música Me Disseram, que começava com a frase "já me disseram/ que meu homem não me ama." "Na época, as compositoras eram raras e minhas músicas sempre foram escritas no feminino. Quando eu compus a letra, aos 16,17 anos, não me dava conta da força das palavras. Na verdade, o teor dessa música era bastante conformista. Queria resgatar algo lá dos anos 30. Mas essa frase, ‘meu homem’, escandalizou as pessoas."

Foi chamada de vulgar e imoral pelo jornalista Sergio Porto, e elogiada por Nelson Motta. Em 1968, mais artilharia pesada com a música "Não Muda Não". "Compus aos 18 anos, e dizia que não queria casamento e que não dava para a vida burguesa", fala a cantora. Machismo, com ela, nem em letra de música. Amiga e parceira de Vinicius de Moraes, implicava com o "essa coisinha", da letra de "Minha Namorada", composição dele e de Carlos Lyra. "Vinicius era um adorável machista e Chico, uma compositora", brinca. Em 1979, cantou a condição feminina com "Essa Mulher", também gravada por Elis. "Fala das múltiplas faces da mulher, muito além da imagem de santa ou devassa."

Carioca de Copacabana, com três filhas e cinco netos, Joyce é casada há 30 anos com o músico baiano Tutty Moreno. Aos risos, conta que a união duradoura, algo raro no meio artístico, foi capa de uma matéria de "O Globo". "Não tem receita. A gente vai se reinventando todos os dias." Com vários projetos em andamento - shows, um novo DVD e um disco instrumental - revela os seus truques para tanta energia. "Não bebo, não fumo, não como carne, faço caminhada e musculação. Mas o mais importante, como me dizia o velho Caymmi: me afasto dos sentimentos ruins, como raiva, inveja e rancor. De resto, com a idade, vou ficando mais esperta todo dia. Quando jovem, era bem bobinha."

ESPIRITUALIDADE
Regina Shakti, 53 anos, irradia uma beleza serena. O corpo, elástico, é resultado da prática de anos de ioga. Segundo ela, a espiritualidade ajuda a aceitar e a enxergar a maturidade como um valor, e não como algo abominável. "Na Índia, uma pessoa só é considerada pronta depois dos 50 anos. A reverência aos mais velhos é visível em todo o Oriente. Acho que se espiritualizar é fundamental, e é a solução para evitar a frustração, a ansiedade e o estresse."

Regina segue os preceitos do ioga, segundo os quais existem três modos na natureza humana: a paixão, a ignorância e a bondade. "A paixão traz sofrimento, pois estamos aqui e queremos estar ali, vamos até lá e gostaríamos de não ter ido.... Nossa mente fica sempre inquieta. Os modos da ignorância trazem a loucura. É quando queremos nos vingar, xingar, sair no tapa. Os modos da bondade atraem a felicidade. Estamos nessa fase quando a mente está serena, prestamos atenção ao que está acontecendo e gozamos de uma disposição interna amigável".

Segundo ela, a humildade, sabedoria, harmonia, desapego, atenção à respiração, controle de humor e intuições aguçadas só chegam a partir da maturidade. O que diria às mulheres que pensam que a vida acabou depois dos 20? "Diria que a vida começa depois dos 50. Toda aquela agitação insana e os excessos hormonais dos 20 não têm graça nenhuma. Nessa idade, a gente se sente extremamente feliz e, depois, completamente infeliz e raramente serena. Aos 50, ficamos mais profundas. Podemos comparar as duas idades com o mar, que tem muitas ondas na superfície e é tranquilo lá no fundo".

CONQUISTAS
As cinquentonas de hoje são as jovens dos anos 1970, geração que viveu intensamente, que provou ser possível trabalhar fora e ser boa mãe, separar-se e casar-se de novo, em suma, uma mulher em constante processo de transformação. A atriz Patrycia Travassos faz parte dessa tribo e lembra que, diferentemente da mulher de 50 anos das décadas de 50 e 60, a mulher madura de hoje só lucrou com os avanços da medicina e em relação à própria libido."Estamos sempre em transformação. É possível fazer faculdade mais tarde ou adiar o plano de ter filhos até se sentir com a vida estruturada, por exemplo. Você vê as fotos de sua mãe com a sua idade e chega à conclusão de que ela aparentava bem mais idade. Eram mulheres que não tinham escolhas, viviam casamentos hipócritas, não trabalhavam, eram alheias à vida social, política e econômica. Isso refletia no corpo e nas atitudes".

Na sua opinião, inclusive, estamos melhores do que eles. "A gente olha para as mulheres numa festa e não sabe dizer a idade delas. Já os homens de 50 e 60 estão totalmente largados. Nos cuidamos mais, em relação à aparência e à saúde preventiva."

Por outro lado, quando chega a menopausa, o corpo muda, os filhos já cresceram, o marido já arranjou cinco amantes e aí a mulher se vê diante da síndrome do ninho vazio. Viver para si, e não para os outros, ter interesses pessoais, diz ela, é essencial para não cair em depressão. "E olha que eu vejo muitas belas adormecidas por aí, que se agarram no casamento."

Mãe de um filho de 19 anos, "prestes a bater asas", Patrycia concilia o papel de atriz com o de apresentadora, há 11 anos, do programa "Alternativa Saúde", do canal GNT, onde assimilou novos conhecimentos de bem-estar. Lembra que, na vida pessoal, sempre flertou com a cultura oriental.

Aos 19 anos, foi à China, quando se impressionou com a prática da acupuntura e fitoterapia. Vegetariana, faz atividades físicas, alternando pilates, natação e alongamento, mas sem se furtar do prazer de tomar um bom vinho. "Aos 50 anos de existência, não gostaria de voltar a ter 20, quando me sentia confusa, ansiosa e cheia de medos. É tão bom se conhecer internamente, ter projetos, viajar, encontrar pessoas. Você, e somente você, é responsável por suas escolhas. Sou espiritualizada, mas não fico como umas e outras esperando que um velhinho de barbas olhe por mim lá de cima das nuvens", brinca.

NA CONTRAMÃO DO BOTOX
A franqueza de Cássia Kiss, 51 anos, é um soco no estômago. Afinal, que outra atriz de meia-idade teria coragem de dizer que gosta de se olhar no espelho e ver as rugas, os cabelos brancos? Cássia, que em várias entrevistas falou abertamente de sua juventude atribulada e dos problemas de relacionamento com os pais, transformou os revezes em sólido alicerce para a construção da maturidade.

Tornou-se uma das raras referências no meio artístico, quando o tema é questão de gênero. Festas, badalação, declarações vazias, botox, plástica jamais são associados ao seu nome, o que a torna um peixe fora d’água no mundinho televisivo. "Nunca quis ser prisioneira da juventude. Quero aparentar os meus 51 anos, e não 30, 40. Sigo a filosofia budista, na qual, ao se aceitar a morte, vive-se muito bem, e viver bem, para mim, não passa pela questão de responder por esse massacre da beleza, da ditadura do vigor sexual. Estou na contramão. Meu objetivo é contar histórias com o rosto que tenho e que estou construindo. Assim posso contá-las melhor. Quero chegar aos 80, 90 anos sendo uma referência. Luto para isso diariamente".

Os quatro filhos da atriz, com idades entre 4 e 13 anos, não apenas lhe trouxeram vigor e jovialidade como a ajudaram a ser mais amorosa. "Talvez por não ter recebido afeto dos meus pais, aprendi com a maternidade a valorizar e extravasar esse sentimento." Para Cássia, os homens têm sua parcela de culpa no comportamento das mulheres, referindo-se à corrida desenfreada contra o envelhecimento. "Eles se sentem poderosos quando desfilam com uma gostosa bunduda e peituda. Uma grande sacanagem. E a mulher cai nessa armadilha de que precisa ser gostosa para segurar homem. O poder de sedução tem outros modos, como a delicadeza, a feminilidade, o gesto, as ideias."

Mas nem tudo está perdido. Seu atual companheiro, pelo qual se diz muito apaixonada, é, no bom sentido, outro "peixe fora d’água": gosta de sua mulher como ela é, com rugas e cabelos brancos.

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