Existe forma mais prazerosa para um roteirista celebrar 25 anos de carreira que ver sua mais recente criação sendo encenada com sucesso? E saber que o que faz há tanto tempo ainda desperta o interesse e leva emoção a pessoas de todos os tipos? Flávio Marinho comemora um quarto de século ¿on the stage¿, brindando o público com um texto sensível e delicado na peça ¿Além do Arco-Íris¿, em cartaz no teatro do Solar de Botafogo, no Rio.

Além disso, ele assina com Miguel Falabella o aguardado seriado A Vida Alheia, na Globo, atração que mostrará os bastidores de uma revista de fofoca, onde Claudia Jimenez interpretará a editora-chefe. Quando as pessoas acreditam que por participarem do Big Brother elas são atores, quando se acha que stand up comedy é teatro, quando as noções e conceitos começam a se misturar, as pessoas passam a fazer coisas antiéticas achando que está tudo bem. O texto do programa trata isso com humor e ironia.

Marcelo Bruno

Flávio Marinho se define como um homem de palavra. E não foge a nenhuma delas, mesmo que para isso tenha que dar respostas contundentes ou polêmicas. Ele recebeu a equipe do iG na coxia do Solar de Botafogo, onde falou sobre vida, carreira, teatro e crítica, sempre embasado pelo que chama de tripé de um roteiro: alternando reflexão, humor e emoção.

Além do Arco-Íris
Comecei a elaborar o texto de Além do Arco-Íris ha quatro anos, quando perdi a minha mãe. Foi um susto muito grande e achei que tinha que falar sobre esse tema de perda, que é tabu no teatro. A Luciana ( Braga , atriz da peça) tinha perdido a mãe meses antes também e isso nos uniu. Acho que dá para falar sobre morte sem ser depressivo. Faço de forma leve, sempre alternando reflexão com humor e emoção.

Dificuldade de Patrocínio
Levei três anos entre escrever e conseguir o patrocínio. Foi muito duro, porque entrei em tudo que era edital e perdi. De uns anos para cá burocraticamente a coisa se complicou demais. É indescritível, coisa para leão e isso me exauriu. Penso em não produzir de novo, porque essa parte esgota qualquer ser humano.

A Maldição da Meia-Entrada
Cerca de 95% da bilheteria é de meio-ingresso. Tem muita gente com carteirinha falsificada aqui no Rio e com isso a gente não consegue pagar as despesas da manutenção de um espetáculo com a renda da bilheteria. A falsificação atinge quem produz a peça e também a quem é estudante de verdade. É injusto para todo mundo. O cara tira sangue na esquina e ganha uma carteirinha que dá direito à meia-entrada, qualquer cursinho de corte e costura dá direito à carteirinha.

Para produzir cultura tem que ser mico de circo
Falta uma política cultural de verdade nos três níveis de governo: estadual, municipal e federal. Existe vontade e tem gente bacana trabalhando, mas sei que é difícil porque já dirigi a Casa de Cultura Laura Alvim, que é do estado, e eles disseram que era orçamento zero. Fabriquei dinheiro: aluguei salas para cursos, fiz exposição e lucrava com percentual de venda dos quadros, coloquei máquina de café e refrigerante e ganhava em cima. Para produzir cultura tem que ser mico de circo.

25 anos de Teatro
Tudo foi por acaso. Eu era crítico de teatro de O Globo, a Barbara Heliodora de ontem (atual crítica teatral do jornal), quando me chamaram para fazer o roteiro de um show na (boate) People. Foi um sucesso estrondoso e acabei virando rei das casas noturnas. Passei a dirigir até o dia que o Wolf Maya soube que eu ia para Nova York e pediu para eu trazer uma peça para a gente fazer aqui. Foi assim que traduzi e adaptei Noviças Rebeldes, que ficou 11 anos em cartaz. Foi o Wolf também que pediu para escrever um musical para Claudia Raia e assim nasceu Splish Splash e foi um sucesso louco. Em 1993 escrevi uma peça chamada Sete Brotinhos, na qual o diretor e produtor sumiram. O elenco me convenceu a entrar nessa e foi sucesso. Depois não parei mais.

Marcelo Bruno

Mais Terrível X Mais Incrível
Quando era crítico, teve um espetáculo que vi e saí no meio. Era a história de um vampiro gay, uma coisa tão vagabunda que agredia a minha inteligência. Na crítica do jornal eu desanquei. Mas no geral, eu sou muito paciente, sempre descobrindo um ponto positivo para salvar. A melhor coisa que vi talvez tenha sido Macunaíma do Antunes Filho . Eu me lembro do impacto que senti com a teatralidade daquele espetáculo enorme e que não cansava. A Fernanda Montenegro em Lágrimas Amargas de Petra von Kant foi algo que deixou todo mundo sem fôlego. Foi a peça que a transformou em estrela, embora sempre tenha sido uma excelente atriz. Nunca vi algo ruim que Fernanda tenha feito. Quando me disseram que não era bom, eu não fui (risos). Ela fez uma ou duas coisas ruins. Como é uma atriz inteligente, também deve ter achado que não foi muito bom.

Ronaldinhas do Tablado
As nossas divas do teatro são Fernanda Montenegro , Marília Pêra , Marieta Severo , que talvez seja uma das atrizes mais inteligente que a gente tem em relação à capacidade de avaliação, Renata Sorrah , Tônia Carrero , Nathália Timberg . O teatro é um matriarcado. São poucos os grandes atores. Ainda colocaria nesse time a Luciana Braga , para quem nunca escreveram algo para explorar toda a capacidade, Louise Cardoso , uma mulher que está fazendo teatro e produzindo com garra, e Cristina Pereira . Essa é a verdadeira seleção brasileira, as nossas Ronaldinhas.

De Crítico a Criticado
Quando comecei a escrever para teatro, passei de pedra à vidraça. Eu encaro a crítica como algo supernecessário, que faz parte do ciclo vital de um espetáculo. O crítico não está lá para ajudar quem fez a peça, ele é um jornalista que está a serviço do leitor, que tem que entender o que acontece no palco e decidir se vai ou não gastar seu dinheiro ali. A classe acha que isso é minimizar a função da crítica, que tem falar com o artista também. Não concordo. Aqui no Rio, por mais que a gente discorde do que a Barbara Heliodora e o Macksen Luiz (crítico do JB) escrevam, temos que dar graças a Deus que são pessoas do meio teatral e sabem do que estão falando. Têm lá seus preconceitos estéticos e de vez em quando metem os pés pelas mãos, mas vejo a música, cinema e artes plásticas em situação pior porque a crítica nestas áreas é muito ruim.

Marcelo Bruno

Stand Up Comedy
Stand up comedy não é teatro mesmo. Fui ver o Paulo Gustavo , um comediante maravilhoso, que está em cartaz com Hiperativo (no Rio). Ele abre a peça dizendo: olha gente, estou fazendo stand up comedy. Não tem personagem, cenário, figurino. Sou eu aqui falando bobagem. Ora, se é alguém falando bobagem não é teatro. Teatro implica em drama; drama quer dizer ação; ação gera conflito; então teatro tem que ter conflito dramático. Não é uma exibição. Stand up comedy é show, coisa que Chico Anysio e Jô Soares sempre fizeram. Não há construção de personagem, mas uma sucessão de piadas. E por não ser teatro, não quer dizer que não seja bom. Morri de rir com o Paulo Gustavo em Hiperativo.

Roteiro na TV
Tenho dois programas na Globo. O Som Brasil é uma alegria roteirizar, porque foi um programa que eu ajudei a criar e mexe com uma das minhas enormes paixões que é a música. Está há quatro anos no ar com enorme sucesso. E estou escrevendo o seriado A Vida Alheia com o Miguel Falabella (atração que mostrará os bastidores de uma revista de fofoca, onde Claudia Jimenez será a editora-chefe). O texto tem humor e ironia e a gente está exercendo a arte dos insultos de forma divertida, porque os personagens estão dizendo coisas horríveis. Acho que quando o nível baixa e as pessoas acreditam que por participarem do Big Brother elas são atores, quando as coisas começam a ficar pouco claras a ponto de se achar que stand up comedy é teatro, quando as noções e conceitos começam a se misturar, as pessoas também fazem coisas antiéticas achando que está tudo bem. Perdeu-se a noção de ética e moral e A Vida Alheia fala muito sobre isso. As pessoas fazem qualquer coisa para aparecer ou invadir a vida alheia. Já estamos escrevendo o sexto episódio.

Eu, Personagem
Há um ano, lembro de estar dando voltas na Lagoa (Rodrigo de Freitas, Rio) com o Miguel (Falabella). Ao voltar para casa, abri a internet e vi uma foto nossa e o texto reproduzindo o que dissemos. As pessoas estavam atrás da gente e não vimos. Os paparazzi se vestem da cor da árvore e saltam na direção do artista. São camaleões! No programa vai ter muita gente pulando detrás da árvore. No programa ninguém vale nada, é uma visão muito cínica da sociedade de modo geral. Não há ressentimento, embora coisas sérias tenham ocorrido. Em 1987, a revista Amiga matou o Falabella de Aids. Ele ficou tão perturbado, porque é barra pesada, gente! Ali foi o começo dessa confusão de paparazzi que tem hoje em dia. Ele passou por algumas, mas é do tipo bola para frente.

Marcelo Bruno

Sabor da Coxia
Eu não sofro nenhum tipo de assédio com os paparazzi. Sou o homem-coxia. A TV salvou a minha vida financeira, mas é no teatro que eu recarrego as minhas energias. Para mim o espetáculo é sagrado, uma arte tão forte e tão frágil ao mesmo tempo. Não deixo que comam na platéia, odeio celular, odeio futebol, odeio São Pedro quando manda a chuva às sete meia da noite, hora das pessoas saírem para ver uma peça! Cartão Vermelho para São Pedro e para tudo que afasta as pessoas da arte.

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