Cristiano Souza quer dar 'tempo’ na pesca e escrever livro sobre agonia de 22 dias, quando chupou olho de peixe para se hidratar

Pescador Cristiano Souza, com a Dilcileia Nascimento Vital e a mãe, Coleti Pereira, na igreja de São Pedro
Agência O Globo
Pescador Cristiano Souza, com a Dilcileia Nascimento Vital e a mãe, Coleti Pereira, na igreja de São Pedro
O pescador Cristiano Souza, resgatado em Santa Catarina após 22 dias à deriva em um barco, afirmou que chorou de desespero, sozinho, três vezes, e pedia a Deus para mandar socorro ou “pelo menos uma chuva”.

“O que fiz para merecer isso?”, perguntava a Deus, em suas orações, contou Cristiano. “Eu soluçava e pensava na minha família”, contou. No período em que ficaram perdidos, à espera de socorro, choveu apenas uma vez.

Traumatizado, o pescador disse que vai “dar um tempo” na pesca e pretende escrever um livro sobre a saga dos seis homens que estavam no barco. “Tenho muita coisa para contar”, disse.

Para minimizar a sensação de ficar desidratado, Cristiano usou água do mar e chupou olhos de peixe. “Usei água do mar para molhar a boca e cheguei a molhar um pouco. O mestre do barco falou: ‘Olho de peixe é água pura’, e a gente arrancava e chupava o olho. Eu falava: ‘Me dá um olho de peixe aí’. Mas o gelo derreteu, e o peixe foi estragando, com 10, 12 dias, e jogamos fora.”

O barco saiu de Cabo Frio (RJ) em 27 de maio e pretendiam ficar no mar por 12 dias. A perda do motor aconteceu no final desse período previsto. A partir de então, ficaram à deriva e foram encontrados em Santa Catarina. Ao longo dos dias, o nervosismo afetou todos.

“Imagine seis pessoas com sede por 20 dias. Mas, felizmente, quando um perdia a cabeça, outros o acalmavam.”

Segundo Cristiano, as orações diárias, às 18h, eram um momento de paz e esperança. “Pedíamos a Deus que olhasse por nós, que mandasse socorro ou ao menos uma chuva para molhar os lábios”, afirmou Cristiano.

Barcos passaram perto, mas ‘não viam ou fingiam que não viam’

Gilnei da Silva é amparado por bombeiro ao chegar ao Rio. Ele continua internado
Agência O Globo
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Os pedidos até foram atendidas, mas não inteiramente. “Passaram vários barcos perto de nós. Só que não nos viam, ou fingiam que não viam. E acabou sendo esse barco estrangeiro, filipino, que nos viu e nos salvou”, disse.

O momento do resgate, porém, não foi tranquilo. Cristiano subiu em uma parte alta do barco e acenou desesperadamente por cerca de 20 minutos até ser visto, e o navio se dirigir ao resgate. Como o barco dos pescadores estava à deriva e o mar tinha grandes ondas, o socorro foi muito difícil. Os estrangeiros aproximaram a embarcação e lançaram uma escada.

Um dos que estavam em melhores condições, Cristiano, subiu no barco e tentou explicar a situação, mas a falta de um idioma comum dificultou a comunicação.

“A maré estava alta e batia muito, o que fez virar um resgate arriscado. Como o barco estava à deriva, não tinha controle nenhum, eles pediam para a gente controlar o barco, eles não entendiam português. Fui o primeiro a subir, mas tive que descer de novo porque três colegas estavam muito debilitados”, contou.

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