O perigo em duas rodas turbinado

Segunda motofaixa da cidade de São Paulo foi aberta nesta quarta-feira, mas os riscos para os motociclistas ainda são grandes

Daniel Torres, iG São Paulo |

Elas são tidas, por muitos, como a vilã do trânsito. A verdade, porém, é que as motocicletas trafegam diariamente em vias preparadas para a circulação de carros. A briga desleal fica evidente nas estatísticas divulgadas pelo Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros: oito mil motociclistas morrem todos os anos em acidente de trânsito. Um índice que tem crescido, ampliado os gastos do governo, mas que caminha a marcha lenta para uma solução.

“A moto veio para ficar. As cidades começam a se mexer para encontrar soluções para os motociclistas, mas ainda é pouco. O trânsito foi pensando para os automóveis e isso precisa ser mudado”, afirmou em entrevista ao iG Lucas Pimentel, presidente e fundador da Associação Brasileira de Motociclistas (Abram) e membro titular da Câmara Temática de Educação para o Trânsito e Cidadania do Conselho Nacional do Trânsito (Contran).

Os números do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) apontam para a urgência em integrar de forma eficaz as motos ao trânsito. Nos últimos dez anos, o total de motocicletas em circulação aumentou quatro vezes: passando de 3 milhões, em 2000, para cerca de 12 milhões, no fim de 2009.

Motofaixa
A motofaixa, apontada pela Prefeitura de São Paulo como uma medida simples e barata, tem sido a aposta da cidade para apaziguar a convivência entre carros e motos. Nesta quarta-feira, a segunda motofaixa da capital paulista foi inaugurada. Construída entre as avenidas Vergueiro e Liberdade, a faixa exclusiva para motos tem 3,5 quilômetros de extensão.

Futura Press
Pistas de 3,5 km criadas nos dois sentidos ligam a Vila Mariana à Sé
Segundo informações da prefeitura, a via é uma alternativa para os motociclistas que trafegam pela avenida 23 de Maio, que terá o tráfego proibido para motos em 90 dias após a abertura da motofaixa. O projeto foi criado após aprovação do corredor na avenida Sumaré.

Para Pimentel, a motofaixa é uma boa solução encontrada para São Paulo. “O motociclista precisa de um tempo para frear diferente dos carros. Se a moto tiver atrás do carro, em uma situação que precise de frenagem rápida, o risco de acidente é alto”, afirma. “A motofaixa, quando pensada em seus pontos de parada e conversão, é uma excelente medida. Um buraco pode furar o pneu de um carro. Para o motociclista, pode ser a morte”, completou.

Não para todos

Daniel Torres, iG São Paulo
Resultado da motofaixa da avenida Sumaré foi satisfatório para a prefeitura
A medida, porém, não é solução para todos os motociclistas do País. Para Roberto Boettcher, ex-campeão latino-americano de motociclismo, e hoje diretor da área de Mototáxi e Motofrete da Agência Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (AMT) de Goiânia, capital brasileira com o maior número de motocicletas por habitantes, o corredor exclusivo de motos não teria grandes efeitos da capital de Goiás. "Goiânia ainda não comporta uma motofaixa. Aqui, praticamente não temos autopistas (avenidas com 4 ou 5 faixas). Temos apenas avenidas mais estreitas”, afirmou Boettcher ao iG.

Segundo dados do Detran-GO, em média, 18 pessoas se envolvem em acidentes de moto todos os dias em Goiânia. Nove morrem todos os meses. Além de capital com a maior relação moto/habitantes, Goiânia, ao lado do Rio de Janeiro, é a segunda colocada no ranking de cidades brasileiras com o maior número absoluto de motocicletas, atrás apenas de São Paulo.

Cadastramento de motociclistas
De acordo com a AMT, a prefeitura de Goiânia tem realizado programas educativos visando aumentar a segurança dos motociclistas. Mas o foco das ações da prefeitura para diminuir os acidentes no trânsito está na regulamentação da profissão de mototaxista e no início do cadastramento de profissionais de motofrete.

"Goiânia foi a capital pioneira na regulamentação do serviço de mototaxista e a cidade só teve a ganhar com isso. Em 5 anos de atividade, o registro de acidentes envolvendo a categoria foi mínimo e registramos apenas 3 mortes. Para poder se cadastrar no sistema, o mototaxista tem que fazer curso de pilotagem defensiva, tem que apresentar certidão criminal, ter seguro pessoal e ter seguro de garupa”, afirma Boettcher.

Campanhas educativas
Para Eduardo Vasconcellos, sociólogo e engenheiro da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), o custo da introdução apressada das motocicletas na sociedade, sem campanhas educativas, é traduzido pela relação de mortes e pessoas com ferimentos que tiveram sua capacidade limitada.

Segundo pesquisa Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre custos hospitalares, acidentes com vítimas representam um custo 11 vezes maior do que um acidente sem vítima. O valor médio do atendimento para casos graves com internação é de R$ 47.588, além do custo de reabilitação que pode chegar a R$ 56 mil. Já atendimentos sem internação têm um custo médio de R$ 645,00.

“O que se sabe sobre a moto? Um veículo importante, mas perigoso, no qual o pára-choque pode ser o próprio condutor. Sabe-se que quando ela circula junto com veículos maiores, temos um grande problema. Falta uma campanha educativa ampla para que todas as informações sejam transmitidas”, afirmou Vasconcellos em entrevista ao iG.

    Leia tudo sobre: motofaixamotociclistasmotos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG