O passar dos anos e a fertilidade Por Arnaldo Cambiaghi São Paulo, 4 (AE) - Nos últimos anos, observa-se que um em cada cinco nascimentos é de mulheres com idade superior a 35 anos. Isto vem acontecendo pelo desejo, quase que obrigatório, destas mulheres conquistarem seu espaço da carreira profissional, às vezes uma viagem sonhada ou um desejo de consumo muito aspirado para, depois, pensarem na maternidade.

Existem ainda outros fatores que as motivam a buscarem um filho em uma idade tardia, como por exemplo, um segundo casamento com um homem que não tem filhos. Entretanto, tudo isto pode ter um preço alto, uma vez que estimula os casais a buscarem seu filho numa fase de declínio da fertilidade. Assim, não devemos nos deixar iludir pela aparência física, pois, a realidade é que podemos nos enganar!

Muitas mulheres acreditam que por continuarem lindas e belas e com a aparência física de uma mulher de 30 anos sua fertilidade também estará. Entretanto não é bem assim, se a aparência física pode ser conservada ou disfarçada, o mesmo não acontece com o aparelho reprodutor feminino. Os ovários refletem a idade cronológica da mulher. Não importa o quanto jovem ela pareça, os óvulos envelhecem com o passar dos anos.

As mulheres quando nascem, tem um número pré-determinado de óvulos que serão desperdiçados com o passar dos anos, algo ao redor de dois milhões. Na primeira menstruação, que acontece na idade próxima aos 12 anos, já ocorre uma diminuição desta quantidade, serão apenas 300 mil óvulos capazes de serem fecundados. A cada ciclo menstrual, para cada óvulo que atinge a maturação, aproximadamente mil são perdidos. Neste processo contínuo e normal, a quantidade de óvulos de boa qualidade disponíveis para serem fertilizados vai diminuindo.

Após os 35 anos, na maioria das vezes, este número já fica bem menor, iniciando-se um maior declínio da fertilidade. Estima-se que uma mulher acima de 38 anos tenha somente 10% dos óvulos que possuía na época da sua primeira menstruação. Aos 40 anos poucos óvulos podem se desenvolver já que a qualidade é bem inferior à encontrada aos 20 anos. Isto pode ser traduzido como dificuldade na ovulação, fertilização, implantação e desenvolvimento do embrião, menor chance de gravidez, maior chance de aborto e doenças cromossômicas.

Uma solução da ciência para se adaptar ao mundo moderno é o congelamento de óvulos, já que é cada vez mais frequente mulheres entre 30 e 37 anos ainda não terem engravidado e estarem preocupadas com seu futuro reprodutivo. Muitas delas são solteiras e ainda não encontraram o seu "príncipe encantado", outras, são casadas, mas por razões pessoais não podem assumir no momento um filho e por isso querem adiar ao máximo a gestação.

Só não podemos esquecer que o congelamento de óvulos deve ser realizado apenas em casos específicos como em mulheres de até 35 anos; com câncer que deverão ser submetidas à radioterapia e quimioterapia; que serão submetidas a tratamentos de fertilização assistida que respondem a indução da ovulação com um grande número de óvulos; ou histórico familiar de menopausa precoce. No futuro elas poderão engravidar por meio da fertilização in vitro e caso não tenham interesse em ter filhos os óvulos congelados poderão ser descartados sem constrangimentos éticos, morais ou religiosos. Uma boa alternativa para diversos casos que necessitam da prorrogação da fertilidade.

*Dr. Arnaldo Schizzi Cambiaghi é médico do Centro de Reprodução Humana do Instituto Paulista de Ginecologia, Obstetrícia e Medicina da Reprodução (IPGO). Formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, pós-graduado pela AAGL, Ilinos, EUA em Advance Laparoscopic Surgety e Membro-titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Laparoscópica, e da European Society of Human Reproductive Medicine.

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