"O normal é que massacres assim se repitam", diz Marcos Rolim

Consultor em direitos humanos e segurança pública defende desarmamento e política de segurança em escolas brasileiras

Daniel Cassol, iG Rio Grande do Sul |

Divulgação
Marcos Rolim: "o criminoso de rua, normalmente um sujeito pobre, hoje consegue comprar uma arma por 100 reais"
O impacto do massacre ocorrido nesta quinta na Escola Municipal Tasso de Oliveira, no bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, pode resultar na repetição do crime nos próximos anos no Brasil. O próprio Wellington Menezes, que matou 12 estudantes da escola, poderia ter se influenciado nos casos ocorridos em escolas dos Estados Unidos.

O alerta é do consultor em direitos humanos e segurança pública, Marcos Rolim.“Se fosse para pensar daqui a dois três anos, vai acontecer de novo. O normal, tomando a experiência, é que isso se repita”, afirma Rolim, em entrevista ao iG. Para evitar a repetição ou mesmo reduzir eventuais danos, ele defende o banimento das armas de mão no Brasil e a criação de uma política de segurança nas escolas.

“Ele pode ser louco, qualquer coisa, mas jamais teria condições de matar 12 crianças se não estivesse armado”, defende. Ex-deputado estadual e federal pelo PT gaúcho, Marcos Rolim é consultor em segurança pública para órgãos ligados às Nações Unidas e colabora em projetos governamentais no Brasil. É autor dos livros “Desarmamento, evidências científicas”, “A Síndrome da Rainha Vermelha: policiamento e segurança pública no século 21” e “Bullying: o pesadelo da escola”.

Na entrevista, além de defender o desarmamento, ele alerta para a necessidade de medidas relacionadas à segurança nas escolas brasileiras. “Chegou o momento de nos darmos conta que as escolas precisam ter um plano de gerência de crise”, destaca.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

iG - O senhor defende uma política de desarmamento no Brasil. Como seria?

Marcos Rolim - O Brasil tem uma política de entrega voluntária de armas, que combina com o Estatuto do Desarmamento, que tornou mais restritos a compra e o porte de armas. Mas isso virou sinônimo de desarmamento no Brasil. O que proponho é mais radical, é o banimento, proibir o uso das armas de mão, como revólver e pistola, que são de difícil percepção.

A ideia do banimento é que ninguém pode ter uma arma de mão, a não ser a polícia. Receberia uma pena de cadeia longa. Na Inglaterra, são dez anos de prisão, o uso de armas de mão é criminalizado . Isso justificaria a destruição de 14 milhões a 15 milhões de armas de mão no Brasil, legais e ilegais. Assim, se enxuga o mercado, criminalizando de forma mais grave e cortando um dos caminhos fáceis do abastecimento do mercado ilegal de armas, que é o mercado legal. Todas as armas são vendidas legalmente e depois vendidas ilegalmente ou roubadas.

iG - As primeiras informações mostram que um dos revólveres usados pelo atirador teria sido roubado.

Rolim  - São duas armas que, na sua origem, foram vendidas legalmente. Depois, foram revendidas, furtadas, caíram na ilegalidade. A migração de armas nacionais para o mercado ilegal, vendidas legalmente no Brasil, é de mais ou menos 80% das armas. Há uma parte que vem de fora, mas que também no seu país tiveram uma origem legal.

iG - Mesmo com uma política de desarmamento, o atirador não poderia ter acesso a uma arma?

Rolim - Seria muito mais difícil. Se tirarmos as armas e inviabilizarmos a compra, o que vai acontecer é que vai subir muito o valor das armas contrabandeadas. Isso não vai resolver o problema das quadrilhas de traficantes, por exemplo, que podem comprar armas da polícia e do Exército. Mas, com uma política dessas, ficaria muito improvável esse tipo de violência.

iG - Não é preciso mais segurança nas escolas? Há quem defenda um policial em cada escola .

Rolim - Seria inviável. Agora, acho necessário que municípios e Estados dêem atenção maior à segurança. Não significa policial na escola, mas um porteiro, uma porta que esteja sempre fechada. Às vezes, uma escola tem cinco ou seis possibilidades de entrada. Outra coisa é o uso de uniforme obrigatório. Há evidências de que o uso de uniforme, além de melhorar a disciplina, a convivência, a concentração dos alunos, é também uma medida de segurança importante. Se todos estão uniformizados, é mais fácil perceber alguém que não está como um suspeito.

Nós temos uma dificuldade de aceitar a ideia da maldade. O fato é que a maldade faz parte da essência humana e nem sempre há uma explicação razoável

Então, um portão que fica fechado, um acesso só, um porteiro, são coisas básicas e viáveis, que não são caras. Também chegou o momento de nos darmos conta que as escolas precisam ter um plano de gerência de crise, como vários prédios públicos têm. Como existem planos contra incêndio, é preciso um plano para tiros. Cada escola deve ter um plano de emergência sobre como lidar com tiroteios, dentro ou fora da escola, com muita simulação, para que todo mundo saiba o que fazer. Como nunca lidamos com isso, não há plano. Tomara que não aconteça, mas acho que um massacre como esse pode se repetir.

iG - O senhor está falando do fenômeno “copycat”, ou seja, a tendência para que crimes como esse sejam reproduzidos por outras pessoas?

Rolim - Há um certo grupo de pessoas que são psicopatas, com graves distúrbios, que ficam sabendo de casos como esse e encontram um caminho. O efeito já está demonstrado no próprio caso de Realengo. Certamente ele acompanhou os massacres ocorridos nas escolas dos Estados Unidos e se encantou. Pode acontecer outras vezes. Se houver cuidados, há a possibilidade de diminuir o dano.

iG - É possível que um massacre como esse se repita no Brasil?

Rolim -
Se fosse para pensar daqui a dois três anos, vai acontecer de novo. O normal, tomando a experiência, é que isso se repita. Não é para distribuir pânico nem para acharem que vai ocorrer. Mas se pegarmos o tamanho do Brasil, o número de escolas e de armas disponíveis, é provável que aconteça. Há um episódio impressionante, do Maníaco do Parque [homem que estuprou e matou pelo menos seis mulheres em um parque de São Paulo, em 1998].

Deu-se muito destaque, ele foi capa de revistas, deu entrevista na televisão. Ele se transformou em uma espécie de celebridade no Brasil. Passaram três ou quatro meses e apareceu um serial killer em Rio Grande (RS). Quando ele foi preso, a imprensa chegou e ele disse, com um certo orgulho, que queria superar o Maníaco do Parque. Quando viu a história, encontrou um caminho. Acho provável que aconteça, mas tomara que não.

iG - No caso da escola em Realengo, é importante entender as motivações do atirador para evitar que casos como esses se repitam?

Rolim - A questão central do episodio é o tema das armas, porque o que podemos fazer de mais eficiente é diminuir a potencialidade de letalidade de eventos desse tipo. Nós temos uma dificuldade de aceitar a ideia da maldade. O fato é que a maldade faz parte da essência humana e nem sempre há uma explicação razoável. Diante dos indicadores, é muito provável que ele tivesse um grave distúrbio mental. Mas afirmar isso agora é irresponsabilidade. Não há elementos mínimos e talvez nunca se tenha, porque ele está morto. O que vai haver são opiniões influenciadas pelo fato, que são questionáveis porque surgem sob o fluxo da emoção. Tudo vai ser sempre hipótese. O fato é que ele pode ser louco, ter um distúrbio, qualquer coisa, mas jamais teria condições de matar 12 crianças se não estivesse armado.

iG - A questão de um possível bullying na infância não é importante?

Tudo que ouvi são hipóteses, não apareceu algo concreto. Essa especulação tem sua razão, porque a gente sabe que a maioria dos casos de massacre em escolas nos Estados Unidos esteve associado a vingança por bullying . Alguns eram considerados gays pelos colegas e uma forma de manifestar a virilidade, associada às armas de fogo, era voltar lá e matar as pessoas. É possível que ele tenha sofrido bullying , mas não sabemos. Ele tem um problema de ordem sexual, não é casual que as vítimas foram quase todas meninas. Há a história da pureza e da virgindade, que ele encontrou na religião um certo amparo para a sua misoginia. Mas é muito improvável detectar essas coisas, não é simples. A solução não é por aí. Se ele não tivesse acesso a armas e carregadores, poderia produzir um mal, mas não com essa gravidade.

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