O impacto do Viagra genérico

Especialistas alertam para o uso equivocado do remédio

Fernanda Aranda, iG São Paulo |

O medicamento que curou a disfunção sexual também expôs a insegurança masculina na hora do sexo, aproximou a aids de quem parecia ter “aposentado” a vida sexual e ainda deixou os cardiologistas em alerta nos pronto-socorros do País.

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A chegada da pílulas azuis genéricas está mais próxima
O viagra agora está próximo de virar genérico e  com a quebra da patente – ela dá ao fabricante o direito de exclusividade na fabricação do remédio – a conhecida pílula azul usada contra impotência sexual pode ficar mais acessível ao bolso dos brasileiros. Com isso, especialistas de diferentes áreas alertam: será preciso ampliar a divulgação dos "efeitos colaterais" do medicamento, que podem ser desde comportamentais até fisiológicos.

Confira como um cardiologista, um infectologista e um terapeuta sexual analisaram os impactos desta novidade na área farmacêutica.

“Viagra não trata insegurança

Jorge José Serapião, ginecologista, psicólogo e membro da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana, não acredita em revolução pós Viagra. “A consequência (da pílula azul) foi muito diferente do que a trazida pela pílula anticoncepcional para as mulheres, essa sim libertadora e revolucionária” diz. “O Viagra denunciou a insegurança masculina. Mostrou que um bom número de homens usa não por ter uma disfunção erétil propriamente dita, mas como uma bengala para inseguranças emocionais”, completa.

O que comprova seu ponto de vista, acredita o psicólogo, são as estatísticas de uso do Viagra, muito mais altas do que as dos que sofrem de impotência. Para ele, a possível entrada de genéricos do medicamento tem consequências ainda incálculáveis.

“O fato de ter um medicamento efetivo e mais barato é muito bom. Nas classes econômicas mais favorecidas, o único lado ruim do Viagra é que o remédio funcionou como um placebo para esconder insegurança. Cuidou da ereção e fez com que os homens deixassem de tratar a origem do problema. Pode ser que em outras faixas sócioeconômicas o efeito seja diferente. Teremos de esperar para ver.”

“Será preciso mais atenção às DST na terceira idade”

Há 12 anos, quando o Viagra chegou ao mercado brasileiro, os idosos foram convidados a rever a vida sexual. Os bailes da saudade “pegaram fogo” e o incentivo ao namoro entre os mais velhos “esqueceu” de falar de camisinha. O resultado é que a participação de pessoas com mais de 60 anos nas estatísticas de HIV aumentou.

Entre as mulheres desta faixa etária os dados do Ministério da Saúde indicam que em 2000 elas eram 8% dos casos novos. Hoje são 15%. Estudo do Instituto de Infectologia Emílio Ribas mostra que 80% contraíram o vírus dos parceiros, muitos “movidos” a medicamentos para ereção.

Apenas no ano passado os “grisalhos” foram eleitos como “garotos propaganda” de Campanha nacional antiaids, com o slogan “idade não traz imunidade”. O infectologista Ésper Kállas, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador de aids da Universidade de São Paulo (USP) avalia que a possibilidade de um genérico do medicamento mais famoso para disfunção erétil reafirma a necessidade de mais campanhas de prevenção.

“Todo mundo deveria ser instruído sobre as formas de transmissão de todas as DST (doenças sexualmente transmissíveis) e também da aids. Os mais velhos têm mais resistência em usar o preservativo. A possibilidade (de um genérico do Viagra) reforça a importância da manutenção de programas preventivos. Quem faz prevenção, não precisa de ação corretiva.”

“Cuidado com o uso corretivo e recreativo”

Não há risco cardíaco em usar Viagra, afirma o cardiologista Rui Ramos, da Sociedade Paulista de Cardiologia e médico responsável do Instituto de Cardiologia Dante Pazzanese. “O perigo é usar e esconder isso do cardiologista” define o médico. Segundo a experiência do cardiologista, o uso “envergonhado” é recorrente nos prontos-socorros. O grande problema do Viagra na cardiologia, explica Ramos, é a associação do medicamento contra a disfunção ao nitrato (substância presente em drogas usadas para tratar várias doenças coronárias).

“Os pacientes que chegam ao pronto-socorro com dor no peito, têm obrigação de responder a verdade para o médico quando perguntado se usaram remédio para disfunção nas últimas 48 horas. Isso porque, a medicação praxe para tratar dor no peito tem nitrato e a associação das duas substâncias é fatal. O homem entra em choque e a reversão (do quadro) é praticamente impossível”, alerta.

Além do uso “envergonhado”, avalia Rui Ramos, o uso “recreativo” também pode aumentar com a redução do preço do medicamento. “O Brasil tem um problema sério. Há um consumo enorme de pessoas que não necessitam do remédio, mas fazem uso por automedicação. Muitos jovens, por exemplo, utilizam sem indicação, antes de festas, como se fosse garantia para o desempenho ou para o aumento da libido. Isso é muito perigoso”, diz.

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