O filme La teta asustada, da peruana Claudia Llosa e baseado no mito andino de que as mulheres estupradas durante a violência política no Peru traumatizavam seus filhos ao dar-lhes o seio para mamar, comoveu nesta quinta-feira o público do Festival de Cinema de Berlim, onde compete pelo Urso de Ouro.

A atriz Magaly Soler interpreta Fausta, que nasceu "com o susto" causado pelo estupro de sua mãe. Ao morrer, esta expressou seu desejo de ser enterrada em seu povoado natal.

O filme não conta apenas a luta de Fausta para conseguir dinheiro para a viagem, como também o lento processo para se curar da doença causada pelo fato de ter enfiado uma batata na vagina por medo de também ser estuprada.

"Fiquei sabendo desse mito da 'teta assustada' graças a um livro de relatos publicado por uma universidade nos Estados Unidos sobre as mujeres violadas durante a barbárie do terrorismo peruano. Essa crença se transmitia de geração para geração e a cura se dava mediante rituais xamanistas", explicou a diretora.

Claudia Llosa esclareceu ainda que a introdução de uma batata na vagina da personagem é um elemento fictício. "A batata é um tampão, ejetor de qualquer objeto externo. No Peru, a batata tem muitas conotações: é a raiz, a fertilidade, a tradição, o que somos, essa carga do passado, essa ferida, o trauma que queremos esconder", explicou.

"Minha pretensão era nos expor sem tabus, falar de tradições que não querem aparecer ante a modernidade. Perdemos nossa memória coletiva, mas nossa ferida ainda existe, e quer sair à luz", conclui em coletiva de imprensa.

jo/cn

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